"Lorena"
A semana tinha sido um inferno gelado. Tudo porque Érick Albelini não sabia lidar com a frustração de não ter o que queria. Ele havia transformado a casa numa extensão do seu escritório e parecia andar o dia todo ao meu redor. Toda noite, ele abria a porta do meu novo quarto, encontrava Alice dormindo ao meu lado e saía bufando sem dizer uma palavra, apenas para me punir no dia seguinte com silêncios cortantes e ordens rudes durante o dia inteiro. Ele achava que estava no controle. Mal sabia ele que eu estava apenas contando as horas para a sexta feira para me ver livre da opressão do tirânico Albelini.
E para a minha completa alegria, finalmente, a liberdade chegou. Ou quase isso, afinal, eu aqinda tinha meus turnos na infernal.
Eu cheguei à Infernal exausta, mas a adrenalina de ser Scarlat era o meu combustível. Aquele ambiente, a batida pulsante das músicas, o absinto e, principalmente, o dinheiro que eu ganhava ali, era o que me dava ânimo. Eu estava no camarim, começando prender os grampos no meu coque para colocar a peruca, ainda sem maquiagem.
- Scarlat! Ele está aqui! - A Pandora entrou no camarim como um furacão, batendo a porta atrás de si. - O se predador chegou cedo. E ele parece estar possesso, garota. E está vindo direto pra cá.
Meu sangue gelou. Eu ainda estava com o rosto lavado, a peruca vermelha e azul pendurada no suporte e ainda faltava o absinto na minha pele.
- Ele não pode entrar aqui, Pandora! Você precisa se livrar dele! - Eu sibilei, correndo para trás do biombo enquanto ouvia a voz autoritária do Érick exigindo passagem no corredor.
- Ele acha que você está se escondendo. As outras garotas estão alvoroçadas, dizendo que ele vai escolher outra se você não aparecer e você sabe que elas cobiçam o camarote dele. - A Pandora sussurrou, encostando o corpo na porta para ganhar tempo.
- Pandora, nós vamos servir aquele camarote em dupla hoje, você vai ser a minha convidada para o inferno deles. - Eu comecei a bolar um plano rápido.
- Como assim, louca? O Barão...
- O Barão quer o dinheiro, em dupla nós vamos dobrar o faturamento e ele vai ficar feliz com isso. Se prepara, convence esse idiota do Albelini que eu tenho uma surpresa para ele esta noite e faça com que ele vá para o camarote.
Neste exato momento eu ouvi a voz dele do outro lado.
- Saia da frente, Pandora. Eu sei que você estgá aí acobertando a sua amiguinha. Eu não vim para os jogos de sempre. Eu quero a Scarlat. Agora! - Ele parecia um leão rugindo e eu estremeci.
Pelo reflexo do espelho, eu vi a Pandora abrir uma frestinha da porta e despachá-lo com a sua lábia de anos de boate, prometendo que eu estava em uma "preparação especial" e que ele não se arrependeria por esperar. Assim que o silêncio voltou, minhas mãos voaram. Maquiagem pesada, o perfume de absinto e a peruca que era o meu escudo. Mas essa noite eu acrescentei um boá de plumas vermelho e joguei um verde para a Pandora.
- O que é isso? - Ela me olhou meio torto.
- Isso é a novidade. Nós vamos subir aquelas escadas do camarote com bandejas de champanhe vintage, luzes de led piscando nas bandejas e vamos fazer uma performance coreografada. Dabe aquela música que estávamos dançando na sua casa hoje antes de vir para o boate?
- Sei... mas...
- Pois é essa música que o DJ vai tocar enquanto subimos e fazemos a nossa performance. Nós vamos dançar, deixar aqueles homens loucos e virar litros desse champanhe caro nas bocas deles, sem nos preocupar se eles estã se afogando. Entendeu?
- Scarlat, você é muito ousada! - A Pandora abriu um grande sorriso.
- Scarlat, acho bom você ter algo muito bom para distrair o Albelini hoje, o homem está furioso e já gritou meia dúzia de desaforos pra mim. - O Barão entrou no camarim irritado.
Ele travou. O maxilar dele se moveu, denunciando a tensão. Ele largou o copo de uísque com um baque surdo na mesa lateral e me segurou com uma possessividade que fez a bandeja de LED na minha mão balançar.
- Aquele pedaço de renda quase me fez perder a cabeça, Scarlat. - Ele confessou, a voz vibrando de uma forma que eu nunca tinha ouvido. - Mas não foi o suficiente. Nada parece ser o suficiente ultimamente. Eu sinto que estou perdendo o controle de tudo.
- Então pare de tentar controlar o mundo, Cavalheiro. - Eu respondi, deslizando minha mão livre por baixo do seu paletó. - Aqui dentro, o mundo não existe. Só existe o agora. E quem controla sou eu!
Ele me olhou com algo que parecia doloroso. Eu via o conflito nos olhos dele: o homem de negócios implacável lutando contra os instintos primitivos que eu despertava. Ele enterrou o rosto no meu pescoço, aspirando o perfume de absinto como se fosse oxigênio.
- Você é o meu vício mais perigoso. - Ele murmurou, e eu senti suas mãos descendo para minhas coxas, ignorando os amigos e a performance da Pandora. - Eu quero você. Agora. Sem público. Sem música. Só você e o inferno que você me prometeu.
Eu sorri, vitoriosa.
- Você está com sorte, cavalheiro, porque hoje eu estou especialmente generosa. Mas quem marca o tempo aqui sou eu, não você. Então o roteiro é o seguinte, você vai beber com os seus amigos, eu vou oferecer aos meus pecadores as doses do inferno, o Barão vai ficar feliz e depois, só você e eu no camarote privativo, sem público, mas com música. Eu tenho um showzinho particular e muito especial para você essa noite. Se prepare.
Eu o puxei pelo colarinho e o beijei de maneira indecente. Aqui na Infernal ele nãoi era o meu chefe, aqui era eu quem ditava as regras e essa noite eu o deixaria no limite da loucura, para me que ele aprendesse como era ser feito de entretenimento. Eu ia fazê-lo esquecer o nome da babá, do advogado e de qualquer outra pessoa, até que ele estivesse tão perdido em mim que não soubesse mais onde terminava a luxúria e onde começava a sua própria ruína.
- Prepare-se, cavalheiro. A noite está apenas começando e ela será inesquecível! - Eu avisei e me afastei dele, o empurrando para o sofá e virando a garrafa de champanhe em sua boca.

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