"Érick"
O Julian e eu fomos os primeiros a chegar na "Infernal". Nós conhecíamos aquela boate muito bem, frequentávamos há muito tempo, quase todas as quintas feiras estávamos ali e já tínhamos sido servidos por todas aquelas garotas diversas vezes. Esse lugar era a nossa válvula de escape da perfeição que esperavam de nós lá fora, onde podíamos deixar de ser os herdeiros perfeitos e abraçar o caos.
Mas eu já estava ficando cansado, as garçonetes já nos conheciam e nos bajulavam tanto quanto as mulheres lá fora e isso era irritante. Eu não suportava a bajulação. E assim que entramos eu dei uma olhada na pista, entediado com os sorrisos de algumas garotas já se virando para nós, se esforçando para serem vistas e lembradas.
Mas uma sombra circulando nos cantos, em mesas mais laterais e menos notáveis, o flash de um cabelo vermelho e azul cortou a fumaça e despertou o meu interesse. Ela não caminhava com o mesmo requebrar de quadril das outras, ela tinha um passo firme e decidido, quase predatório, como se mirasse o alvo e caminhasse resolutamente até ele. E quando os olhos dela se viraram em minha direção sem realmente me ver, sem o esboço de um sorriso forçado, eu já sabia que ela não era como as outras.
- Olha ali, Érick. Tem peça nova no tabuleiro. Ela não parece dócil como as outras, ela parece que realmente morde. - Claro que o Julian percebeu em que direção eu olhava e a percebeu no momento em que ela segurou o pulso de um cliente mais animado que tentava tocá-la.
O gerente do lugar se aproximou, prestativo como sempre, com aquele sorriso de quem sabe que tem tudo o que o cliente deseja. Ele nos acompanhou ao camarote e eu me aproximei do vidro, encontrando quase que magneticamente o vulto de cabelos vermelhos e azuis lá embaixo. Ela não pedia passagem, os homens se curvavam para ela.
- Quem é a ruiva com olhar de quem está pronta para incendiar uma igreja, Barão? - Eu perguntei e ouvi a risada curta dele.
- É a Scarlat. Um achado raro, mas que ainda não aprendeu a etiqueta da casa. É um tanto... indomável. Se é que você me entende. Não acho que seja a garota certa para atendê-los. - O gerente respondeu como se soubesse o que me agradaria. Era só mais um bajulador.
- É, não é. Perfeito! Mande-a subir. Ela vai nos servir pelo resto da noite e avise-a que o 'atendimento padrão' não será suficiente hoje. - Eu não dei espaço para discussão e o Barão sabia que isso significava lucro para a casa.
- Você manda, mas eu não posso garantir que ela será tão afável quanto as outras. - O Barão me alertou e eu apenas o encarei sem nenhuma expressão. Foi o suficiente para que ele entendesse o recado.
- Não se preocupe. Digamos que eu estou investindo na experiência. - Eu respondi e voltei os meus olhos para o vulto vermelho lá embaixo.
Eu não a perdi de vista enquanto ela caminhava entre as mesas fazendo os homens recuarem com um olhar apenas. Eu a observei se encostar no balcão do bar e vi o exato momento em que o Barão a abordou. E por um momento eu vi a pequena fissura na armadura dela, quando a outra garçonete se afastou, o breve momento que ela oscilou entre ir atrás da outra e se virar para o bar, tinha algo diferente naquela mulher, como se ela fosse uma sobrevivente.
Não demorou para que a Scarlat invadisse o ambiente, sem pedir licença, como se o lugar fosse dela e nós apenas visitantes que tiveram a audácia de aparecer sem sermos convidados. A voz dela era quase de tédio, mas quando ela ofereceu uma noite no inferno, ela soou como quem estava abrindo as portas de uma cela na qual nós imploraríamos para entrar.
Ela passou entre todos os meus amigos servindo bebidas variadas, me deixando por último e eu tinha certeza que aquele movimento não foi calculado por ela, porque se ela tivesse pensado, ela me serviria primeiro, enquanto os outros ainda não estavam sentindo a bebida queimar na garganta e poderiam me apressar.
Ela me desafiou com uma dose dupla de tequila, eu a encarei como se a desafiasse de volta e a dinâmica entre nós estava estabelecida, cada um puxando a corda para o seu lado e no final da noite apenas um de nós sairia vencedor e seria eu. Eu peguei o copo e virei a bebida, sem desviar meus olhos daquele castanho profundo que me encarava como se não estivesse nem um pouco impressionada.
- E agora? - Eu perguntei ao pousar o copo sobre a bandeja.
- Agora, cavalheiro... você é meu convidado no inferno. E eu sou uma anfitriã muito exigente. - A voz dela era um contraste com a aspereza de quem já tinha gritado muito e a suavidade de quem sussurrava segredos.
Aquela mulher não era só um enigma, ela era linda, corpo perfeito, pernas longas e torneadas, cintura fina e os seios quase saltando daquele corselet. Os olhos expressivos, mesmo debaixo de toda aquela maquiagem que impedia um vislumbre do rosto dela e a peruca vermelha e azul davam a ela uma aura de imprevisibilidade controlada.

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