"Lorena"
Na minha primeira noite na boate eu pensei em desistir. Os saltos, as cantadas, as propostas descaradas que os homens faziam, foram quase demais para mim. Mas, no final do trabalho, quando as gorjetas foram divididas, eu mudei de ideia, se todas as noites fossem daquele jeito eu dobraria o salário no fim do mês e eu precisava do dinheiro. Então eu continuei voltando e fazendo de tudo para garantir aquele emprego.
E enquanto eu trabalhava à noite, durante o dia eu continuava procurando um trabalho como contadora.
Depois de duas semanas eu já conseguia equilibrar a bandeja como se tivesse nascido para aquilo e me virava muito bem no serviço. E, mesmo que alguns clientes fossem mais insistentes e ousados e meus pés ainda me matassem no fim da noite, as gorjetas me lembravam do porque de eu aguentar aquele trabalho com um meio sorriso no rosto.
- Lô... - A Marcelina se aproximou de mim no bar enquanto eu esperava que colocassem as bebidas na minha bandeja. - O Mariano acabou de me mandar uma mensagem, ele chegou de viagem, disse pra gente passar lá na casa dele amanhã.
- O advogado? - Eu perguntei e ela fez que sim. - Ai, finalmente! Ô viagem longa, hein?!
- Pois é, eles foram visitar uns parentes em outra cidade. Mas chegaram, isso que importa.
- Novata! - O Barão se aproximou de nós e eu estremeci, ele era um tanto grosseiro e completamente autoritário. - Passe as suas mesas para a Pandora, você vai atender "O Trono" hoje.
O Trono era o principal camarote da boate, um lugar exclusivo com visão privilegiada no andar superior. Atender “O Trono” não significava apenas subir e descer escadas a noite inteira, também significava sorrir mais e atender a cada pedido dos clientes, inclusive beber com eles, e todas reclamavam, mesmo as gorjetas sendo maiores. Eu olhei para a Pandora na dúvida se eu daria conta.
- Barão, você nunca mandou uma novata atender “O Trono”. Ela não treinou ainda, imagina se cai da escada com a bandeja?! E ela não é do tipo que... - A Pandora veio em meu socorro.
- Se cair paga o prejuízo! Mas eu quero você lá em cima hoje. Os clientes escolheram e pagaram para serem atendidos por você. Eles são o tipo que se acham os donos da cidade. Você já sabe, tem que fezê-los beber... e mostre a eles que aqui é o inferno, aqui o dinheiro deles é apenas papel!
- Mas, Barão... - Eu nem consegui argumentar.
- Anda novata, se apresse porque os clientes que você vai atender hoje são gente muito fina, as gorjetas vão ser boas. - Ele se virou mas voltou. - Vou te dar um incentivo, atenda bem esses figurões e quando eles forem embora eu libero você também. Quando eles forem embora, você também pode ir e tudo o que você ganhar de gorjeta lá, é seu!
- Tá falando sério? - A Pandora perguntou e ele confirmou. - Uuiii! As gorjetas do camarote costumam dar mais do que o salário, Scarlat.
- Tá bom, eu vou! - Eu me enchi de coragem.
- Você não tem escolha mesmo. - O Barão deu uma risada curta. - Faça esses homens beberem até cair, novata, é nisso que a casa lucra. Brinque com a mente deles, o que eles querem é sair da rotina. - Ele se afastou e eu me virei para a Marcelina apavorada.


VERIFYCAPTCHA_LABEL
Comentários
Os comentários dos leitores sobre o romance: A vida dupla da babá: Santa de dia, Scarlat à noite