“José Miguel”
Enquanto a Carmem e o Matheus se encaravam como se pudessem matar um ao outro com os olhares cheios de raiva, eu sequei as lágrimas no meu rosto e coloquei os óculos escuros.
- Não, Carmem, eu não trabalho para você. – O Matheus respondeu com aquele tom debochado que a Carmem odiava.
- Seu estúpido! Vai embora daqui! Você nunca gostou da minha filha, fez de tudo para destruir a felicidade dela. – A Carmem se aproximou e ficou cara a cara com o Matheus.
- A felicidade dela era causar sofrimento ao José Miguel! Sua filha era uma oportunista, aproveitadora, manipuladora e completamente perturbada. Vivia cega de ciúmes, não dava paz para o José Miguel. E continua não dando, não é mesmo?! Mesmo depois de morta, a Cora continua infernizando a vida do José Miguel. – O Matheus encarou a Carmem, ele não recuaria.
- Ora, seu… - A Carmem abriu a boca, mas eu intervi, ou aquilo se tornaria uma verdadeira desordem de gritaria e xingamentos desnecessários.
- Chega! Tenha respeito pela memória da sua filha, Carmem. E você Matheus, se controla! – Eu exigi aos dois e eles se olharam, o ódio emanando quente dos olhos de ambos. Eles se viraram para frente e fizeram silêncio.
Pena que o silêncio não durou muito!
- Você já pediu perdão pelos seus pecados, José Miguel? – A Carmem falou ao meu lado e o Matheus riu.
- Ele não precisa pedir perdão, ele tem crédito em conta só por te aturar, pode até cometer mais alguns pecados por aí que ainda continuará com saldo positivo. – O Matheus provocou e eu balancei a cabeça e decidi ignorar os dois.
- Meus filhos, eu desejei tanto vocês, sonhei tanto com vocês e vocês nem tiveram chance de nascer. Faltava tão pouco para vocês chegarem, eu estava tão ansioso para segurá-los em meus braços. – Eu apoiei as minhas mãos sobre aquele túmulo e as minhas lágrimas voltaram a cair como cachoeiras, eu sentia o meu peito sendo rasgado pela dor. – Perdão, meus filhos, perdão por ter sido tão imprudente, por ter tirado de vocês o direito de nascer.
- José Miguel, se eles podem ver, eles sabem que não foi culpa sua. Não é justo que você se martirize assim. – O Matheus colocou a mão no meu ombro, tentando me consolar.
- Não se iluda, José Miguel, você sabe muito bem o que você fez. Se você não tivesse ido aquele bar depois do trabalho, a Cora não teria saído de casa para ir atrás de você e aquele maldito acidente não teria acontecido. Você sabe o que você fez, você sabe que foi sua culpa. – A Carmem repetiu as palavras com a mão pousada sobre o meu outro ombro.
- Ah, cala a boca, Carmem! Você é uma cobra manipuladora, está há anos se aproveitando da dor do José Miguel para manipulá-lo! – O Matheus respondeu.
- Sai daqui, criatura imunda! Sai daqui! Você não deveria ter vindo! Você tem parte dessa culpa, foi você quem arrastou esse fraco para aquele bar, no meio daquelas mulheres. – A Carmem proferia cada palavra com o ódio pingando na voz.
- E me arrependo de não tê-lo trancado em casa e impedido que ele se casasse com a sua filha! – O Matheus jogou na cara dela mais uma vez.
- NÃO FALA DA MINHA FILHA! RESPEITE OS MORTOS! DEIXE A MINHA FILHA DESCANSAR EM PAZ! – A Carmem gritou para o Matheus.
- Sinceramente, Carmem, a verdade é que é você que não deixa a sua filha descansar em paz. Você fala tanto nela, todos os dias culpando o José Miguel por aquele acidente, todos os dias cobrando dele fidelidade a um casamento que nem existe mais, que eu acho que a sua filha já virou foi uma alma penada vagando por aí. – O Matheus não se intimidava com a Carmem e os dois bateriam boca ali o dia todo.
- Ai, meu deus! – Eu suspirei e me virei para aqueles dois. – Vocês dois, se afastem!
- José Miguel, é a minha filha e os meus netos! – A Carmem reclamou.
- Não parece! Você chega aqui e não demonstra o mínimo de respeito. – Eu a encarei irritado e ela se encolheu. – E você, Matheus, só fica quieto, por favor!



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