“José Miguel”
Com o passar dos dias eu descobri que trabalhar com a Srta. Sanchez não seria tão fácil assim. Mesmo que eu tenha conseguido passar pela primeira semana criando um abismo entre nós, aquela mulher tinha algo que me fazia esquecer a razão.
Em casa as coisas se repetiam dia após dia. Eu tentava me manter longe da Carmem o máximo possível, por isso chegava do trabalho e me trancava no meu escritório até a hora do jantar, o único momento em que eu ainda me forçava a estar perto da Carmem, que, nos últimos dias, só falava de duas coisas, o evento do sábado e o maldito acidente. Eu só queria pular o sábado no calendário.
- Bom dia, Candinha! Onde está a Carmem? – Eu perguntei ao me sentar para o café da manhã.
- Infernizando a vida do jardineiro. – A Candinha sorriu. – Você está bem?
A Candinha estava comigo desde antes da Carmem aparecer na minha vida há sete anos atrás, sabia de cada detalhe sobre cada coisa e, assim como o Matheus, detestava a Carmem e só não tinha ido embora ainda porque dizia que não me deixaria sozinho no inferno.
- Não! – Eu respirei fundo e foi tudo o que eu tive tempo de dizer antes da Carmem entrar com o seu vestido preto austero, batendo seus sapatos como se marchasse pelo piso da cozinha.
- Ah, que bom, você já está pronto. – Ela olhou com aprovação para o meu terno preto com a gravata combinando. – Muito bem! Eles vão gostar de te ver assim!
- Carmem, eles não podem me ver! – Eu resmunguei.
- É claro que podem, José Miguel! Eles te vêem o tempo todo! – Aquilo era tão estranho! – E eles vêem que você está falhando com eles de novo. – Ela estava sempre voltando naquilo, era doloroso e irritante. Eu bufei e me virei para ela.
- Carmem, porque as fotos estão pela casa? – Eu perguntei irritado.
Há muito tempo eu havia dado ordem para retirarem todas as fotos espalhadas pela casa, eu não queria nenhum porta-retratos, me doía olhar para aquelas fotos todos os dias, como se aqueles olhos inertes nas fotos me julgassem o tempo todo. Mas, hoje, elas estavam todas de volta aos seus antigos lugares.
- Porque é onde elas têm que estar, espalhadas pela casa, como era. São as fotos da sua família, José Miguel. – Ela se aproximou de mim e passou as mãos pelas lapelas do meu paletó. – Elas estão pela casa para que você não volte a se esquecer da sua promessa!
- Mesmo que eu quisesse, Carmem, você não me deixa esquecer. – Eu me afastei dela e peguei a xícara de café sobre o balcão. – O que você preparou para hoje?
Embora eu já soubesse que seria o mesmo de todos os anos, eu perguntei, apenas para não falar mais das fotos.
- Primeiro, nós vamos visitá-los. Encomendei as flores, que já devem ter sido entregues. Depois, nós vamos à igreja. Convidei alguns amigos, como sempre. E, depois, os amigos se reunirão aqui para um brunch.
- Seus amigos se reunirão aqui. – Eu disse bruscamente, porque sabia muito bem quem ela tinha convidado e porque.
- Boas pessoas, que entendem a nossa dor e compartilham desse dia doloroso conosco. – Ela me respondeu e eu dei um riso seco. Eu odiava aquelas boas pessoas, mas eu os suportava todos os anos e em alguns dias esporádicos, como no aniversário da Carmem, porque ela gostava deles e eu tinha prometido cuidar dela.
- O de sempre! – Eu suspirei e olhei para o relógio no meu pulso, quanto antes aquilo começasse, mais depressa terminaria. – Eu vou indo na frente, te encontro lá.
- Sei, sei. Eu nunca vou concordar que foi sua culpa. E você jurou tudo isso, num momento de desespero e com a Cora jogando na sua cara que você tinha matado a ela e aos seus filhos, com a Cora te pressionando por esse juramento porque, segundo ela, só assim poderia ter paz. Porque você era dela, havia se casado com ela. Uma cobra manipuladora, isso sim! Nem na hora da morte se arrependeu dos absurdos que te fez passar. E, me desculpe, não é porque morreu que virou santa.
O Matheus nunca escondeu o seu desagrado pela minha escolha para esposa, a Cora não era muito diferente da mãe e a Carmem tinha muito poder sobre a Cora.
- Esse lugar me dá calafrios. – Ele reclamou. O Matheus nunca gostou de cemitérios.
- Não seja crianção! – Eu falei e ele me encarou como se tivesse sido ofendido.
- Vai me dizer que você não se sente observado aqui? Como se todas essas estátuas não estivessem vigiando você? – Ele perguntou e eu ri.
- De acordo com a Carmem, são os mortos que nos vigiam.
- A Carmem é louca. E eu não entendo porque ela ainda vive sob o mesmo teto que você.
- Porque eu prometi para a Cora, Matheus. Enquanto ela morria nos meus braços, depois daquele maldito acidente. Eu ainda me lembro daquela noite, como se tivesse acontecido ontem. – Eu fechei os olhos e repassei na memória aquela noite de desespero e horror.
- Ah, mas é claro, o assistente do demônio já chegou! – Eu me virei para o lado e via a Carmem parada ali, encarando o Matheus como se quisesse matá-lo.

Comentários
Os comentários dos leitores sobre o romance: Amor irresistível: O segredo do chefe
Porque não liberaram mais capítulos depois do 251?...