"José Miguel"
Eu me sentei diante do Nelson naquela sala que tinha um poder calmante sobre mim. Dessa vez nós usamos a mesa de trabalho dele, que estava posta como a mesa de um restaurante, o que deixava o clima como o de dois amigos sentando em algum lugar para comer e convcersar, me deixando muito mais à vontade. Eu desconfiei de que não era a primeira vez que ele almoçava com um paciente.
Eu me acomodei na confortável cadeira de braços e sorri, um sorriso genuíno, que transmitia exatamente o que eu estava sentindo, aquela leveza que a Eva me dava e a paz que eu sentia ali na ppresença do Nelson. Eu pensei mais uma vez em como eu passei a sorrir depois que a Eva invadiu a minha vida.
- Está vendo isso no meu rosto? - Eu perguntei e ele me analisou com um leve ar de divertimento.
- O sorriso? - Ele apontou.
- Esse! - Eu concordei. - É por causa da Eva! Essa mulher invadiu a minha vida e agora eu me pego assim quase o tempo todo, sorrindo até para as paredes.
- Mas isso não é bom?
- Eu sinto que sim, mas ainda sinto... - Eu abaixei a cabeça e organizei melhor os meus pensamentos. - A verdade é que eu ainda me sinto como um homem sem caráter que se apaixona por outra e vive um caso clandestino. Eu nem me livrei da culpa por ter matado a Cora e os meus filhos, como a Carmem vive insistisdo em me dizer. E agora eu estou perdidamente apaixonado por essa mulher linda e vibrante, que me faz sentir vivo de novo e que enxerga em mim mais do que o viúvo assombrado ou o assassino da própria família. Eu sou só a sombra de um homem, Nelson. E eu estou sendo terrivelmente egoísta, inclusive com a Eva, estou pensando apenas no quanto eu me sinto bem com ela e a arrastando para isso...
- Vamos com calma, José Miguel! Primeiro você precisa entender que todos esses sentimentos confusos dentro de você são perfeitamente humanos. Você se sentir bem com a Eva e entender o que sente por ela, admitir que está apaixonado, isso tudo é o seu cérebro e o seu coração sinalizando para você que você está vivo, que a sua vida precisa seguir em frente.
Nós ouvimos uma batida na porta e ele mandou entrar. Um funcionário do restaurante do hospital entrou com um carrinho, serviu o nosso almoço e se retirou em seguida. Eu estava pensando sobre o que o Nelson me disse sobre os meus sentimentos.
- Me diga, como você está indo com os pesadelos? - O Nelson chamou a minha atenção de volta, mudando um pouco a direção.
- Eu tive apenas um desde que a Carmem foi internada. Ontem. Se repetiu o pesadelo da Cora confrontando a Eva, lembra que te falei?
- Sim, a Cora te puxa e a Eva vai embora. Repetiu igual?
- Sim. A Eva estava comigo. Ela me acordou com um beijo. - Eu ri. - Falando assim parece até conto de fadas.
- Talvez seja como um, porque não?! - O Nelson pousou o garfo sobre o prato. - Contos de fadas são expressões simbólicas profundas do inconsciente individual e coletivo, são ferramentas importantes de compreensão da psique humana. São metáforas, José Miguel, que permitem ao indivíduo explorar suas emoções de uma forma simbólica e segura.
- Quer dizer que ela me acordar com um beijo é como se ela tivesse o poder de me resgatar dos pesadelos?
- Por aí! Eu diria que tem menos a ver com o ato físico e mais a ver com uma transformação interna que você está passando e a Eva tem tudo a ver com isso. Nas fábulas, o beijo de amor verdadeiro é uma força transformadora que "salva" o indivíduo de um estado de estagnação ou isolamento. E nas fábulas o amor é sempre um ponto de transformação, de encontro do indivíduo consigo mesmo, com a sua personalidade adormecida, vamos dizer assim. Então, sob essa perspectiva, sim, a Eva é o seu conto de fadas. - Ele sorriu confiante.
- Ela é o meu ponto de transformação. - Eu experimentei a idéia e fazia muito sentido. - É, tudo mudou depois dela, mas também depois que eu me afastei da Carmem nos últimos dias e isso foi graças ao que você me falou no hospital, que talvez eu estivesse fazendo mais mal do que bem à Carmem.
- E se você percebeu isso, você não acha que talvez seja mais saudável para vocês dois que se afastem? Digo você e a Carmem.
- É o que eu estou considerando. Eu tenho um apart e estou me mudando para lá. Vou deixar a Carmem com a casa e vou continuar dando a ela o meu apoio, mas a distância. A senhora que eu contratei como acompanhente continuará com ela. Mas a Carmem foi atrás da Eva. Eu não sei como ela soube, mas ela soube e confrontou a Eva, contou várias mentiras e a Eva quase terminou comigo. Essa foi a razão do meu pesadelo, eu acho.

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