~AYLA~
Lorenzo estava mais animado do que eu jamais havia visto. Seus olhos brilhavam com uma intensidade quase infantil, mas em vez de me contagiar, aquilo só me deixava desconfortável. Ele gesticulava freneticamente enquanto falava sobre os planos para o próximo sábado, a empolgação em sua voz beirando o exagero. Eu o observava à distância, recostada na cadeira do camarim, com os dedos entrelaçados no colo. Meus olhos vagueavam pelo espelho à minha frente, fixando-se em um reflexo que parecia estar em outro mundo, enquanto a sua energia invadia o espaço, preenchendo o pequeno camarim com algo que eu não sabia como lidar.
A empolgação dele deveria me tranquilizar, talvez até me dar uma dose de confiança, mas, na verdade, só me fazia sentir ainda mais deslocada. Ele via tudo aquilo como um jogo, algo emocionante e lucrativo, enquanto para mim, era apenas uma questão de sobrevivência. A luta diária para lidar com o vazio dentro de mim parecia cada vez mais difícil de suportar, e Lorenzo parecia alheio a tudo isso.
— Nyx, você disse que estava pronta para "evoluir seus trabalhos" — ele repetia, como se quisesse ter certeza de que eu não iria mudar de ideia. — E eu tenho o plano perfeito. Um grande leilão! Os caras vão à loucura. Afinal, depois de três anos trabalhando aqui e eles podendo ver, mas não tocar, é o melhor que podemos fazer!
Eu ri, sem conseguir evitar o tom amargo que tomava conta da minha voz.
— Leilão, Lorenzo? Não é como se eu fosse uma virgem para ter algo a ser leiloado.
A provocação estava lá, mas ela não significava nada. Eu sabia que minha reação não passava de um reflexo automático, um mecanismo para tentar afastar a sensação de ser propriedade de alguém. A dor de ser reduzida a um objeto, algo que outros desejavam, mas nunca viam de verdade, era algo com o qual eu estava aprendendo a lidar. E ainda assim, a ironia estava lá.
— Isso não importa, Nyx. — Lorenzo respondeu com um sorriso largo, como se estivesse oferecendo algo valioso. — O que conta é que você está aqui há três anos, eles te desejam, e agora terão a chance de conseguir o que querem. Essa espera só torna tudo mais valioso.
Eu suspirei, o peso no peito me pressionava, mas não disse nada.
— Faça o que achar melhor, Lorenzo. Eu só preciso do dinheiro.
O sorriso de Lorenzo alargou-se ainda mais, seus olhos brilhando com uma malícia que eu não sabia mais como ignorar.
— Dinheiro, Nyx, é o que não vai faltar. Confia em mim.
Ele saiu do camarim, deixando a energia de sua empolgação reverberando pelo espaço vazio. Eu precisei de alguns minutos sozinha antes da performance de abertura. Levantei-me, ajeitei o roupão de seda que cobria meu corpo e caminhei até a parte de trás da boate. O ar fresco da noite me atingiu, um alívio instantâneo para os pensamentos pesados que rodavam na minha cabeça.
Encostei-me na parede de tijolos e respirei fundo, tentando organizar minhas emoções. A boate sempre me parecia sufocante, mas lá fora, no silêncio da noite, eu sentia uma breve liberdade. Foi então que vi Pedro, o segurança da boate, fumando um cigarro, a luz bruxuleante da brasa iluminando parcialmente seu rosto.
Pedro era uma figura imponente, sempre quieto e observador. Era o tipo de cara que fazia seu trabalho sem chamar atenção, mas todos sabiam que ele estava lá para garantir que ninguém ultrapassasse os limites.
— Quer um cigarro? — ele ofereceu, sem sequer olhar para mim, mas estendendo o maço na minha direção.
Eu não fumava e Pedro sabia disso, mas, ainda assim, ele sempre me oferecia. Como se aquilo, de alguma forma, pudesse anestesiar minha realidade. Muitas garotas ali se rendiam a vícios ainda mais fortes com esse intuito.
— Não, obrigada — respondi. — Mas um dia desses eu ainda aceito. Tá difícil lidar com o que tá aqui dentro. — Toquei a cabeça, tentando brincar com o peso dos meus conflitos internos.

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