~ NICOLAS ~
— Foi o único jeito — comentei, enquanto fazia mais uma série de exercícios no supino. Ricardo, ao meu lado, parou de mexer no celular e me olhou como se eu estivesse maluco.
— Dois meses inteiro com a garota? — Ele franziu o cenho, surpreso.
— É — respondi, controlando a respiração entre as repetições. — Não tinha outro jeito de conseguirem liberá-la para mim ontem à noite.
Ricardo soltou uma risada e me entregou a garrafa de água quando terminei a série.
— Dois meses, cara? Você se superou dessa vez. — Ele balançou a cabeça, incrédulo. — Mas me diz uma coisa... Ela valeu o investimento? — Ele arqueou uma sobrancelha, com aquele tom de provocação que me era tão familiar.
Por um instante, considerei a pergunta. Ricardo esperava uma resposta simples, provavelmente algo sobre como foi uma noite incrível. Eu, por outro lado, estava longe de ter a noite que ele imaginava. Mas de certo modo, foi uma boa noite sim — uma noite que ficou na minha mente, mas não pelo motivo que ele supunha.
— Digamos que foi diferente — disse, desviando um pouco o assunto, sem entrar em detalhes.
Ricardo pareceu desapontado com a minha resposta.
— Ah, vai me dizer que não aproveitou? Que desperdício... — Ele me cutucou de leve, rindo.
— Não foi bem isso — murmurei, e ele percebeu que eu não queria continuar com o assunto.
— Tá, tá. Então... Vai lá hoje de novo, certo? Afinal, você tem a garota mais desejada da casa só para você, hein? — Ele riu, claramente animado com a ideia.
Sacudi a cabeça.
— Não hoje. É domingo — respondi, limpando o suor da testa com a toalha. — Dia de levar Amélie para ver Isabela.
Ricardo fez uma expressão de entendimento, embora eu soubesse que ele nunca entendia totalmente o que aquela visita significava para mim.
— Ah, claro. As visitas. — Ele suspirou e voltou a mexer no celular, distraído.
Dirigir até o Centro de Saúde Mental, do Hospital Mercy, era uma rotina que eu tinha aos domingos, mas nunca deixava de mexer comigo. Amélie estava no banco de trás, entretida com sua boneca favorita, uma princesa com um vestido rodado e brilhante. Eu olhava para ela pelo retrovisor de tempos em tempos, sentindo uma mistura de afeto e preocupação, apenas para garantir que ela estava segura.
— Papai, olha! — Amélie me mostrou a boneca, o rosto iluminado de alegria.
Eu sorri.
— Ela está linda, meu amor — comentei com um sorriso sincero, observando o rosto de Amélie se iluminar com o elogio. O som de "papai" sempre me trazia uma sensação de carinho. Era incrível como, em seus cinco anos, ela já tinha toda essa doçura e energia.
— Claro que sim, meu amor. Ela sempre gosta quando você vem.
Amélie sorriu, satisfeita com a resposta, e voltou a falar com a mãe. Para ela, a esperança de algum dia ter um retorno, um gesto, uma palavra de carinho de Isabela, ainda existia. Mesmo que eu soubesse que isso era quase impossível.
A visita prosseguiu da forma habitual. Amélie contava suas histórias, segurava a mão da mãe e, de vez em quando, olhava para mim em busca de aprovação, o que eu sempre dava com um sorriso. Isabela permanecia alheia a tudo, imersa em seu mundo próprio, desconectada da filha que estava bem ali ao seu lado.
Quando chegou a hora de ir, Amélie se despediu da mãe com um beijo na testa, algo que fazia questão de fazer toda semana. Eu a segui, sentindo o peso daquela rotina que nunca ficava mais fácil. Sabia que fazia o que podia por ambas, mas às vezes sentia que aquilo não era o suficiente.
No caminho de volta, Amélie estava mais silenciosa, segurando sua boneca com mais força do que antes. Sabia que as visitas à mãe a afetavam, mas ela era forte. Mais forte do que eu, às vezes.
— Papai, a mamãe vai melhorar? — perguntou ela de repente, sem tirar os olhos da boneca.
Eu respirei fundo antes de responder.
— A gente está cuidando bem dela, meu amor. Isso é o que importa — disse, sabendo que, para uma criança de cinco anos, essa resposta nunca seria suficiente. Mas, por enquanto, era a única que eu tinha.
O silêncio tomou conta do carro de novo, e eu apenas a observei, pensando em como eu podia proteger aquela garotinha de uma realidade que ela ainda mal entendia.

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