~NICOLAS~
O bar que escolhemos estava quase vazio naquela noite de sábado. A iluminação baixa lançava sombras suaves sobre os copos de uísque e garrafas perfeitamente alinhadas atrás do balcão de mogno escuro. O som abafado de jazz tocava ao fundo, e o gelo no meu copo tilintava suavemente enquanto eu o girava entre os dedos.
Ricardo estava sentado à minha frente, com a gravata frouxa e o paletó jogado displicentemente sobre o encosto da cadeira. Ele bebia devagar, mas seus olhos me analisavam com a intensidade de alguém que sabia mais do que dizia.
— E então? Como está Isabela? — perguntou ele, rompendo o silêncio confortável entre nós.
— Foi só um susto — respondi, com a voz rouca do álcool e do cansaço acumulado. — Mas você sabe... Na situação dela, não existe mais "bem". Cada dia é uma batalha que estamos perdendo.
Ricardo assentiu, o olhar dele carregado de compreensão.
— Talvez fosse melhor começar a preparar Amélie para o pior, Nico. Ela é esperta, mas ainda é uma criança.
Soltei um suspiro pesado e passei a mão pelo rosto, sentindo a barba por fazer arranhar meus dedos.
— Você acha que eu não tento? Que eu não penso nisso todos os dias? Amélie faz terapia desde que a situação da mãe começou a ficar insustentável. Mas como eu explico para ela que a mãe provavelmente nunca mais vai reconhecê-la? Como eu digo que ela não vai estar lá na primeira apresentação de balé dela?
Minha voz falhou no final, e por um momento, o silêncio se instalou novamente entre nós.
— Você fez o que era certo — disse Ricardo, depois de um tempo. — Sabe disso, não sabe?
Eu não respondi. Nem sabia se acreditava que fiz o certo. Na maioria dos dias, parecia que eu estava apenas sobrevivendo, passando de um dia para o outro, carregando nos ombros um peso que nunca parecia diminuir.
Ricardo percebeu que o assunto estava se tornando pesado demais e resolveu mudar de direção.
— Por falar em balé… — Ele soltou um longo assobio. — Que professora gata você foi arrumar para as meninas, hein?
Eu ri, um som curto e rouco, mas genuíno.
— Em outros tempos eu não teria resistido tanto às investidas de Helena.
— Ah, eu sei bem! — Ricardo riu, apontando para mim com o copo. — O velho Nicolas Sartori nunca deixava passar uma oportunidade dessas.
Meu sorriso sumiu lentamente, e encarei o fundo âmbar do meu copo.
— Mas não é ela que ocupa minha cabeça, Ricardo.
Ricardo estreitou os olhos, o sorriso sumindo do rosto dele também.
— Ayla?
Assenti levemente, deixando o peso daquele nome cair entre nós.
— Esse é outro problema — continuei, minha voz mais baixa. — Ela ficou devastada quando descobriu que eu era casado. E não foi só isso, foi a maneira como aconteceu... Descobrir que eu tenho uma esposa no hospital.
— Você não contou a ela que...?
— Não tive nem tempo para qualquer conversa.
— Então esquece ela, Nico. — Ricardo deu de ombros. — Você sabe que isso não tem futuro. Especialmente se ela descobrir… a verdade.


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