A música reverberava pelas paredes do camarim enquanto eu esperava Teri se apresentar. A batida eletrônica ecoava, preenchendo cada canto da boate com uma energia pulsante e sedutora.
O espaço era quase idêntico àquele que eu conhecia tão bem, e, ao mesmo tempo, completamente diferente. Eu nunca tinha estado ali naquela linha do tempo, nunca tinha pisado naquele chão ou sentido o cheiro da mistura de perfume barato e fumaça de cigarro, mas meu corpo reconhecia cada detalhe como se pertencesse àquele lugar.
A familiaridade era inquietante.
Era como se duas versões da realidade colidissem dentro de mim, me deixando suspensa entre o passado e o presente. O sofá de couro vermelho no canto, as luzes piscando de forma irregular no teto, o espelho manchado que refletia a movimentação apressada das dançarinas se arrumando… eu conhecia tudo aquilo. Eu vi tudo aquilo se esvair em fogo, cinzas e fumaça.
Mas, ao mesmo tempo em que tudo era estranhamente familiar, eu me sentia quase como uma estranha revisitando um sonho do qual eu já tinha acordado.
Suspirei, tentando afastar a confusão da minha mente e me concentrando na câmera que filmava as garotas no número de encerramento. Elas dançavam em perfeita sincronia, os corpos se movendo com precisão ao ritmo da música.
Meu corpo se moveu junto.
Sem nem perceber, comecei a reproduzir a coreografia que eu fizera tantas vezes naquela outra realidade. Os movimentos fluíam com naturalidade, meu corpo respondendo antes mesmo que eu ordenasse.
Foi nesse instante que ouvi uma voz atrás de mim:
— Se você puder fazer isso tirando a roupa, diria que tem um emprego garantido.
A risada escapou antes que eu pudesse evitar.
Lorenzo.
As mesmas palavras. As mesmas exatas palavras que ele usou da primeira vez.
Me virei, encontrando seu olhar afiado e aquele sorriso malicioso que sempre carregava no rosto.
— Não, não mesmo. — Cruzei os braços, ainda rindo.
Ele ergueu uma sobrancelha, avaliando-me com curiosidade.
— Qual o problema? A timidez? O preconceito? Ou a…
Eu já sabia exatamente onde aquilo ia dar.
— Nem preconceito e nem moral. Mas eu não preciso. Porquê dessa vez, eu tenho um emprego e uma família!
Os olhos de Lorenzo se estreitaram.
— Como é que você sabia o que eu ia falar?
Dei de ombros, um sorriso misterioso brincando nos meus lábios.
— Nessa linha do tempo, não há nada que me faça voltar para esse inferno.
Lorenzo franziu a testa.
— Linha do tempo? Do que diabos você está falando?
Antes que eu pudesse responder, a porta do camarim se abriu e as garotas começaram a entrar, finalizando sua apresentação. Lorenzo apenas bufou, olhando para Teri e murmurando:
— Sua amiga é muito estranha.
Ele já estava prestes a sair quando resolvi falar mais uma coisa:
— Ah, e a propósito, você deveria mandar alguém verificar a instalação elétrica desse lugar se não quiser lidar com um incêndio que vai te fazer perder tudo em alguns anos.
Lorenzo parou, me lançando um olhar desconfiado.
— Você é louca.
— E você é teimoso.
Ele resmungou algo inaudível e saiu, sacudindo a cabeça. Mas eu o conheci o suficiente para saber, por aquele seu olhar confuso, que ele faria exatamente o que eu sugeri.
Teri, que até então só observava a interação, cruzou os braços e me olhou com interesse.
— E então? Agora que você deixou meu chefe achando que eu ando com maluca, vamos sair daqui?
— Com certeza.
O sol já despontava no horizonte quando caminhamos pelo bairro silencioso. As ruas estavam vazias, apenas os primeiros trabalhadores começando a sair para seus turnos matinais.



VERIFYCAPTCHA_LABEL
Comentários
Os comentários dos leitores sobre o romance: Amor por Acidente - A Stripper e o Bilionário
Libera todos os capítulos...