A exaustão pesava sobre meus ombros como uma âncora, mas, por mais que Teri tivesse insistido para que eu ficasse e descansasse um pouco, dormir era um luxo que eu ainda não podia me permitir. A última vez que me lembrava de ter dormido de verdade foi na outra linha do tempo, envolta nos braços de Nicolas, com sua respiração quente contra minha pele e o conforto absoluto de saber que eu era dele, assim como ele era meu. Agora, tudo aquilo não passava de um borrão distante, um sonho que se dissipava a cada segundo que eu permanecia acordada.
Eu precisava resolver as pendências antes que minha mente desmoronasse por completo. Queria voltar para casa e aproveitar o pouco de normalidade que ainda restava — minha mãe, meus filhos, a sensação de que pelo menos ali, entre eles, eu estava segura.
Entrei no carro da minha mãe, que estava usando emprestado, e segui para o apartamento que dividia com Miguel. Na outra linha do tempo, neste exato momento, ele já saberia que os filhos estavam mortos e que eu estava em coma. Como ele havia reagido? Chorou? Se desesperou? Se culpou? Ou simplesmente seguiu sua vida ao lado de Helena? Eu nunca saberia, mas a verdade é que parte de mim nem queria saber.
Estacionei o carro em uma das vagas de visitantes e, ao desligar o motor, senti um calafrio percorrer minha espinha. Meus olhos se fixaram em um veículo parado na minha vaga habitual.
Um Fiat Mobi roxo.
Meu estômago revirou.
A pessoa que tentou me matar. A pessoa que cortou os freios do meu carro.
Ela estava aqui. No meu apartamento.
Fechei os olhos por um momento e respirei fundo, tentando conter o impulso de sair correndo dali. Não agora, Ayla. Você precisa ver, precisa saber.
Desci do carro e caminhei até o elevador, sentindo cada batida do meu coração reverberar nos meus ouvidos. Minha mão segurou firme a chave dentro do bolso, e quando cheguei à porta do apartamento, girei-a na fechadura o mais silenciosamente possível.
Assim que entrei, os vi.
Helena e Miguel.
Os dois se assustaram ao me ver, afastando-se um do outro rápido demais, como se tivessem sido flagrados fazendo algo que não deveriam.
Interessante.
— Ayla! — Helena praticamente gritou meu nome, correndo em minha direção com um sorriso forçado e abraçando-me apertado. — Graças a Deus!
Miguel também se aproximou, com uma expressão que eu diria ser de alívio, se eu não conhecesse tão bem o homem que ele era.
— Onde diabos você estava?! — Ele exclamou, passando as mãos pelos cabelos. — Tentamos falar com você o dia todo! Eu fui à polícia, aos hospitais…
Pisquei lentamente e, ao invés de responder diretamente, soltei um suspiro cansado e me larguei em uma das cadeiras da mesa da sala.
— Vocês não vão acreditar, mas alguém cortou os freios do meu carro.
O silêncio caiu sobre o ambiente como uma tempestade prestes a explodir.
— O quê?! — Helena ofegou, levando uma das mãos à boca.
Miguel franziu a testa.
— Como assim? Você está bem? As crianças estão bem?
— Sim. Passei a tarde na delegacia, prestando queixa, fazendo perícia e tudo mais. Foi um milagre eu ter percebido antes que algo realmente ruim acontecesse. — Dei um sorriso irônico. — Não foi?
Helena parecia pálida.
— Claro que foi! Meu Deus, eu… eu não sei o que faria se algo acontecesse com você!
Minha mandíbula travou por um instante antes de forçar um sorriso.
— Imagino que daria um jeito.
Helena me olhou, confusa, mas não insistiu.
— Tem certeza de que não desconfia de ninguém? — Miguel perguntou.
— A polícia já prendeu alguém. — Menti sem hesitação. — Aparentemente, não foi nada pessoal contra mim. Só um maluco qualquer.
Helena soltou um suspiro de alívio tão visível que não deixou dúvidas que a sua preocupação toda naquela história não era eu ou as crianças. Era não ser pega.
— Falando em carros… — Cruzei as pernas, jogando um olhar casual pela janela. — Você trocou o seu, Helena? Tem um Fiat Mobi roxo na minha vaga que não reconheci.

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