Laura
Eu deveria estar com medo.
Talvez estivesse. Um pouco. Mas não o suficiente para ir embora.
O quarto do hospital parecia diferente agora. Menos frio. Menos impessoal. Talvez fosse porque Enoch estava acordado, consciente, com aquele meio sorriso que sempre fazia meu estômago se comportar como se eu tivesse esquecido de comer o dia inteiro.
"Eu… eu quero tentar", falei de uma vez, antes que minha coragem fugisse. "Mas eu não quero segredos entre a gente. Não dá pra começar algo assim escondendo coisas."
Ele me observou por alguns segundos, sério demais para alguém que tinha acabado de sobreviver a um acidente.
"Você quer a verdade."
"Quero tudo", respondi. "Não é possível alguém viver desse jeito em pleno século XXI. Hospital secreto, família misteriosa, regras que ninguém explica… isso não é normal. Se quer que a gente tenha algo sério, quero a verdade desde o início dessa relação."
Ele riu baixo, um som rouco.
"Você não faz ideia do que é tudo isso."
"Então me conta, Enoch. Me conta o que é tudo isso." apertei mais os dedos dele em minhas mãos.
"Não agora", disse, com suavidade. "Quero estar bem. Quero te mostrar. Não explicar pela metade e correr o risco de você fugir de mim."
Franzi a testa.
"E por que eu fugiria?" Ri. "Você vira um monstro por acaso?"
O sorriso dele desapareceu rápido demais.
O ar ficou tenso. Denso.
Estreitei os olhos.
"Ei, foi brincadeira. Não é como se você pudesse se transformar em algo. Isso é coisa de cinema."
Ele me puxou um pouco mais para perto, com cuidado por causa dos ferimentos, mas firme o suficiente para me deixar sem fôlego.
"Eu só preciso que você tenha a mente aberta", murmurou. "Existem coisas que pessoas comuns não sabem sobre mim. Sobre minha família. Coisas que pessoas como eu, damos a vida para esconder, para proteger quem nós amamos."
Engoli em seco e assenti.
"Eu consigo fazer isso. Mas para de me assustar, eu assisto muito filme de ficção cientifica, e esse papo de pessoas como eu, é muito...assustador."
"Não tem nada a ver com isso, pode ficar despreocupada."
Me abaixei um pouco mais, minha mão subindo até o rosto dele. Acariciei sua bochecha com cuidado, sentindo a pele quente sob meus dedos.
"A Libby disse que você ficaria melhor aqui", comentei, tentando aliviar o clima. "E olha só… parece mesmo. Seus ferimentos estão muito melhores. Nem sei como isso é possível."
Ele sorriu de lado, aquele sorriso perigoso que fazia meu coração acelerar.
"Algumas coisas parecem sobrenaturais", disse. "Mas eu vou te dar uma explicação plausível em breve."
Suspirei e me sentei na beirada da cama.
Então ouvi um som estranho escapar dele. Baixo. Grave. Um rosnado contido, carregado de emoção demais para caber em palavras.
E, entre nossos lábios, ele murmurou algo que eu não entendi.
"Minha companheira."
Meu coração quase parou.
Mas o beijo dele me puxou de volta à vida. A mão de Enoch se apoiou na minha nuca, firme e quente, me trazendo ainda mais para perto. O beijo mudou. Ficou profundo, avassalador, como se algo tivesse sido despertado dentro dele. Apoiei-me em seu peito, esquecendo completamente dos ferimentos. Pelo jeito, ele também tinha esquecido. Era como se estivéssemos presos numa espiral de sensações, girando rápido demais para pensar.
Quando ele finalmente se afastou, seu nariz roçou meu pescoço. Senti-o inspirar fundo, farejando minha pele, o que me arrancou um arrepio involuntário e uma risada nervosa.
"Para com isso, seu doido."
Tentei me afastar, mas no instante em que levantei o olhar, meu corpo congelou.
Os olhos dele estavam diferentes.
Não eram mais castanho-escuros. Brilhavam num dourado intenso, vivo demais para ser real.
"Seus olhos… eles…" Levantei-me no mesmo instante, o coração disparado.
"Não se afasta", pediu, piscando várias vezes. "Eu posso explicar…"
Piscou de novo. E de novo. Até que o dourado desapareceu, dando lugar à cor de sempre.
Já eu… eu não tinha certeza se algo ali ainda podia ser chamado de normal.

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