Enoch
Eu estava sentado na beirada da cama, com o corpo curado, mas a mente um caos barulhento. Parecia que alguém tinha chutado meu peito e deixado tudo ali, amassado, desalinhado, irritante.
Eron e Riuk estavam no quarto comigo, fazendo o favor de existir e me perturbar, porque aparentemente irmãos serviam para isso.
Eron cruzou os braços e soltou aquele suspiro de macho sensato, que sempre me dava vontade de jogar um travesseiro na cara dele.
"Você devia se transformar logo. Vai acelerar o processo de cura. E, principalmente, vai parar de ficar com essa cara de… perdido."
"De filhote chorando na chuva", completou Riuk, rindo enquanto cutucava meu braço. "Sério, tá deprimente."
Revirei os olhos, porque a vontade real era uivar. "Eu já estou curado. Ou quase. Depois que a Laura saiu… meu lobo simplesmente… se levantou. Ele se rebelou, tomou conta de tudo. ZEROU tudo. Sem eu precisar mutar."
Riuk arregalou os olhos como se eu tivesse dito que engravidei sozinho.
"Sem mutar? Só… assim?"
"Ele está obcecado por ela", confessei, passando a mão no rosto. "Eu não tenho muitas escolhas. Se ela me rejeitar… eu vou ter que lidar com isso. Mas, caralho, que problema. Nem sei como fazer isso."
Os dois caíram na gargalhada imediatamente.
Eron bateu no meu ombro. "Nossa, que triste. O maravilhoso e inabalável Enoch finalmente ganhou uma rasteira do destino."
"Se quiser eu pego um violino", disse Riuk, "e faço uma trilha sonora trágica pra essa sua fase nova."
Eu só bufei. "Vocês são insuportáveis."
"É o nosso charme", os dois responderam juntos, como idiotas sincronizados.
Mas a verdade é que, no fundo, por trás da provocação deles, havia preocupação. Eu sentia. Era o que mantinha o quarto menos sufocante.
Riuk se inclinou para a frente.
"Olha, você acha mesmo que só você vive com medo? A Rubi acabou de virar loba, Enoch. Ela não sabe lutar, não sabe se defender, não teve nenhum treinamento. Eu passo noites em claro imaginando alguém encostar nela e ela não saber o que fazer."
Ele passou a mão no rosto, rindo de nervoso.
"Ela é calma, doce… mas justamente por isso me dá um pânico desgraçado. Eu fico achando que preciso ficar colado nela o tempo todo. É um inferno na minha cabeça."
Eron assentiu.
"É. Ele vive andando atrás dela igual sombra. Se ela tropeça, ele quase liga para o conselho médico de lobos."
Riuk apontou para o irmão.
"Então assim… não é porque nossas companheiras são lobas que elas não podem ir embora. E não é porque são lobas que não podem se machucar. A gente vive com esse medo também. Então para de achar que está sozinho nessa."
Eu esfreguei o peito, onde a sensação da ausência dela ainda latejava.
"Eu sei. Mas a Laura não é loba. Ela não foi criada nesse mundo. Ela não entende nada disso. E agora sabe demais. E eu joguei um universo inteiro em cima dela em cinco minutos. Como é que ela vai… aceitar?"
Riuk apontou o dedo na minha cara.
"Você não sabe. Para de tentar adivinhar. A Rubi foi conversar com ela. Se ela voltar, ótimo. Se não, você põe suas quatro patas no chão quando se transformar e vai atrás dela."
"Que romântico", eu murmurei.
"Que funcional", ele corrigiu.
Eron caminhou até minha frente, me analisando como se fosse um médico e eu um lobo com cara de dor.
"Levanta. Anda. Mostra que você está realmente bem."
Eu me levantei, meio irritado com a ordem, mas obedeci. Ainda senti um resquício de dor quando estiquei o tórax, mas passou rápido. O lobo dentro de mim vibrou, inquieto, como se tivesse farejado algo que eu ainda não notara.
Riuk estreitou os olhos.
"Você está realmente bem. Até a postura mudou. É o lobo mexendo nos fios da sua coluna só porque ela respirou perto de você, né?"
"Eu não sei onde ela está", rebati.
"Mas ele sabe", Eron disse. E a frase entrou na minha pele como uma verdade que eu tentava ignorar.
Eu estava prestes a dizer algo quando o cheiro entrou no quarto.
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