Rubi
Cinco anos depois.
Às vezes eu ainda me pego pensando em como tudo mudou tão rápido e, ao mesmo tempo, tão naturalmente. Como se a vida tivesse só nos empurrado para onde sempre foi o nosso lugar.
O dia estava claro. O céu aberto, daquele azul que só aparece quando parece que o mundo resolveu colaborar. A alcateia inteira estava reunida, organizada, silenciosa de um jeito respeitoso. Era o tipo de silêncio que carrega expectativa, orgulho e história.
Hoje era o dia.
A coroação de Eron como Supremo.
Observei meu companheiro ao meu lado do meu cunhado. Riuk estava sério, concentrado, mas os olhos denunciavam o que ele sentia. Orgulho. Amor. Responsabilidade. Ele estava pronto. Sempre esteve. Assim como Eron, ali à frente, firme, confiante, carregando nos ombros algo muito maior do que um título.
E Enoch… Enoch parecia exatamente onde deveria estar. Não precisava dizer nada. A presença dele já dizia tudo.
Uma nova geração.
Um novo tempo.
“Mamãe!”, a voz aguda cortou meus pensamentos. “O Orion pegou meu biscoito!”
Suspirei, virando-me para a mesa baixa onde duas criaturinhas absolutamente lindas e absolutamente teimosas estavam quase se encarando como pequenos adversários de guerra.
“Ayla”, falei com calma, cruzando os braços. “Vocês dois não vão brigar por causa de biscoito.”
“Mas esse era o último de abelha, tia!”, Orion reclamou, apontando com indignação. “Eu queria! A Ayla já comeu três!”
“Dois e meio”, Ayla corrigiu, emburrada, com migalhas no canto da boca.
Olhei para minha filha. O mesmo olhar decidido do pai. A mesma teimosia. O mesmo coração enorme.
“Filha”, me abaixei o quanto minha barriga permitiu, já pesada demais para ignorar a nova vida crescendo ali. “Você sabe que precisa dividir. Por que está agindo assim?”
Ela fez um bico tão dramático que Riuk teria orgulho.
Ela não respondeu e sorri de canto.
“Orion, pode comer o biscoito”, falei. “Depois a gente pega outro.”
Ayla cruzou os braços, ofendida com o mundo inteiro.
“Vocês sempre ficam do lado dele.”
“Porque você já comeu três”, respondi, sem nem piscar.
Ela bufou.
Laura apareceu ao meu lado, rindo baixo, com aquele sorriso tranquilo de quem já entendeu que crianças lobas não vêm com botão de desligar.
“Eles já estão brigando de novo?”, perguntou.
“De novo”, respondi. “Agora o motivo é o biscoito. O que eles vão fazer quando os irmãos chegarem?”
Ela passou a mão pela própria barriga, agora firme, saudável, viva. Orion tinha sido um milagre que mudou tudo. E Laura… Laura era a prova de que amor e escolha eram mais fortes do que qualquer destino imposto.
Antes que eu pudesse dizer mais alguma coisa, uma sombra enorme se aproximou.
Libby.
Ou melhor, Libby e sua barriga monumental.
“Eu ouvi biscoito?”, perguntou, como se estivesse prestes a cometer um crime gastronômico.
“Nem pense”, Eron disse imediatamente, surgindo atrás dela. “Esses são das crianças.”
“Eu estou gerando três pessoas”, ela rebateu. “Isso conta como argumento.”
Riuk riu, balançando a cabeça.
Dois meninos confirmados. Um terceiro bebê que se recusava a mostrar o sexo em qualquer exame.
“É menina”, Libby dizia com convicção. “Eu sinto.”
E, honestamente, ninguém duvidava.
Os Reynolds e os Peytons estavam todos ali. Misturados. Unidos. Como se sempre tivesse sido assim. Como se o início de tudo tivesse sido apenas um ensaio para esse momento.
Então o som ecoou.
O chamado.
A alcateia se calou.
Ragnar deu alguns passos à frente.
Meu sogro estava mais sereno do que nunca. O tempo tinha deixado nele algo bonito. Sabedoria sem peso. Autoridade sem dureza.
“Durante muitos anos”, começou, a voz firme ecoando pelo espaço aberto, “eu tive a honra de liderar esta alcateia.”
Silêncio absoluto.
“Honrei cada decisão. Cada batalha. Cada escolha. Nem sempre acertei, mas sempre amei esse povo com tudo que eu tinha.”
Vi Cam ao lado dele, segurando sua mão. Vi os filhos atentos. Vi a família inteira refletida naquele momento.
“Hoje”, Ragnar continuou, “não encerro uma história. Eu entrego um legado.”
Meu peito se apertou.

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