Enoch
Eu ainda sentia o gosto de ferro na boca quando me tiraram de perto dela.
“Senhor, precisamos que o senhor saia agora.”
Não lembro de ter resistido fisicamente, mas por dentro eu estava em pedaços. Meu corpo inteiro vibrava, o lobo urrando, batendo contra minhas costelas como se quisesse rasgar a pele e voltar para ela. Laura estava ali, aberta, sangrando, frágil demais para alguém que sempre foi tão forte.
Eu tinha feito a única coisa que podia.
E mesmo assim… talvez não tivesse sido suficiente.
“Eu preciso ficar com ela”, rosnei, a voz completamente diferente da minha. “Ela é minha companheira.”
“Ela está em procedimento”, respondeu o médico, firme, mas humano. “Agora precisamos esperar.”
Esperar.
A palavra soou como uma sentença.
“Esperar quanto tempo?” perguntei, andando de um lado para o outro da antessala como um animal enjaulado.
“O efeito inicial do gene leva cerca de duas horas para estabilizar o organismo”, explicou. “Só depois disso saberemos se a hemorragia foi contida.”
Duas horas.
Meu lobo rosnou, furioso.
“Ela não tem duas horas”, falei, sentindo algo se quebrar dentro de mim. “Ela estava morrendo na minha frente.”
O médico me encarou por alguns segundos longos demais.
Então disse, com uma honestidade brutal:
“Então reze.”
Foi ali que tudo dentro de mim desmoronou de vez.
Eu estava sentado, curvado para frente, com os cotovelos apoiados nos joelhos, quando me dei conta de que ainda segurava meu filho nos braços.
Orion.
Pequeno. Quente. Vivo.
O contraste quase me matou.
Como eu podia segurar a vida nos braços enquanto o amor da minha vida lutava para não morrer do outro lado daquela porta?
Uma enfermeira se aproximou com cuidado, a voz baixa.
“Senhor… o bebê está bem. Os sinais vitais estão ótimos.” Ela olhou para mim, avaliando. “O senhor gostaria de levá-lo para conhecer a família antes de irmos para o berçário?”
Eu assenti sem pensar.
Tudo o que eu precisava agora era da minha família.
Do meu chão.
Do meu alicerce.
Quando entrei na sala de espera com Orion nos braços, a reação foi imediata.
Sorrisos. Passos apressados. Olhos marejados.
“É ele?”
“Meu Deus, ele é lindo.”
“Olha o tamanho dessas mãos!”
Mas bastou um segundo para que tudo mudasse.
Eles olharam para mim de verdade E viram.
Minha mãe foi a primeira a se aproximar. O sorriso morreu no rosto dela assim que encontrou meus olhos.
“Enoch…” a voz saiu baixa. “Como a Laura está?”
Eu tentei responder.
Não consegui.
Eron chegou mais perto, instintivamente, colocando uma mão firme no meu ombro. Um apoio silencioso.
Ela pegou Orion dos meus braços com cuidado, como se soubesse que eu estava prestes a cair.
E eu caí.
Me dobrei para frente, o ar saindo dos pulmões em um soluço que eu não consegui conter. Eron me segurou antes que eu fosse ao chão.
“Ela teve uma hemorragia”, consegui dizer, a voz quebrada. “Muito forte. Forte demais.” Passei as mãos pelo rosto, tremendo. “Eu tive que morder ela.”
Um silêncio pesado caiu sobre todos.

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