Capítulo 102
Mariana Bazzi
O jardim ainda estava um pouco úmido da garoa da noite anterior, e o ar fresco me envolvia. Eu andava entre as roseiras, distraída, com os dedos roçando de leve nas pétalas recém-abertas. A casa estava agitada — era eu que estava buscando silêncio, como quem procura abrigo dentro da própria cabeça.
Foi ali, naquele instante de paz, que senti a presença dele. Não precisei virar para saber. O cheiro, os passos, a imponência no ar... era Ezequiel.
— Está me espionando agora? — perguntei, sem encará-lo, com um meio sorriso nos lábios.
— Só observando. — a voz dele veio baixa, quase rouca. — Você está pensativa.
— Estava pensando nas minhas irmãs. — respirei fundo, enfim virando para ele. — Sei que você já deixou ordens para irem atrás do meu pai, mas... mesmo assim, elas estão lá e eu aqui. Parece errado.
Ele se aproximou devagar, as mãos nos bolsos, o olhar atento.
— Amanhã podemos passar lá. Só uma visita rápida, sem alarde. Vamos dar uma espiada, quem sabe não encontramos aquele maldito. Se você sentir que algo está fora do lugar, tiramos elas de lá. Sem perguntas.
Soltei o ar em alívio e sorri, mais leve.
— Obrigada. Não sabia que precisava tanto ouvir isso até agora. Soraya anda difícil de lidar, mas não consigo simplesmente esquecer as duas.
— Você tem um exército à disposição, Mariana. Só não se deu conta ainda. — ele disse, quase como um aviso. — Inclusive, já coloquei Sara a par de como as coisas funcionam. Ela é sua agora. Lide como bem entender. Mauro e Avelar foram resgatar umas moças e vão levá-las para a outra casa. Pode ir até lá. Doutora Samira está fazendo atendimento.
Ia responder algo, mas as vozes vindo da entrada da casa nos distraíram. Valéria surgiu com aquele jeito de furacão controlado, carregando um cesto com frutas e pão fresco com várias crianças e pré-adolecentes. Vinícius vinha atrás, e entre eles, com uma careta de esforço e orgulho, vinha Aaron.
— Olha quem resolveu andar com as próprias pernas! — Sara brincou, indo até eles. Nós também nos aproximamos.
— Com duas pernas e duas muletas humanas — ele respondeu, rindo enquanto se apoiava em Valéria e Vinícius. — Mas prefiro pensar que estou melhor.
— Aaron, você está ótimo. — disse Ezequiel, com um aceno de cabeça.
— Eu sempre estive ótimo, vocês que não sabiam enxergar.
Valéria deu uma cotovelada leve nele.
— Menos, vai. Só ontem você queria que o Vinícius te carregasse quase no colo até o banheiro.
— Exagero. — retrucou Aaron.
Rimos juntos. Por alguns segundos, ali no meio do jardim, com o som de passos no cascalho e o aroma do pão fresco, tudo parecia normal.
— A gente já vai — disse Valéria, ajeitando a bolsa no ombro. — Só passamos pra deixar isso e ver a carinha orgulhosa do Aaron. Já conversou com os irmãos, conheceu os sobrinhos...
Nisso, a garotinha menor voltou da cozinha fazendo ânsia.
— O que foi, Emily? — Valéria perguntou.
— Tem um homem com cheiro horrível, mamãe — ela apontou para dentro e lá entravam Avelar e Mauro pela porta dos fundos. Todos sorrimos quando Avelar olhou com cara de quem não entendeu nada.
— Don? — Ele questionou.
Adan quanto mais rápido revelou:
— Que Deus o ajude, soldado. Criança não mente, e você está cheirando mal. Emily quase vomitou. — Tenente puxou o garoto.
— Que isso Adan? Onde estão seus modos? Adan Avelar é um dos melhores soldados do Ezequiel. — O menino arregalou os olhos.

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