Capítulo 103
Ezequiel Costa Júnior
O rosto daquela mulher não saía da minha mente. Imagens se misturavam e fiquei confuso, mas eu tinha certeza que já havia visto ela.
Mesmo com Mariana ao meu lado, sorrindo e tentando parecer forte, uma angústia silenciosa se instalava dentro de mim — como uma corda esticada prestes a romper. A imagem daquela mulher mexeu comigo de uma forma que eu não conseguia explicar. Eu a conhecia, disso eu tinha certeza. E não era uma lembrança vaga ou inventada por minha mente falha. Era algo real. Eu a tinha visto viva.
— Soldado, liga pro Mauro. — minha voz soou firme, mesmo com a tempestade dentro de mim. — Quero ele e a doutora Samira lá no cemitério, imediatamente.
Mariana apenas assentiu quando repeti que abriríamos o túmulo da mãe dela. Ela estava tentando ser forte, mas suas mãos tremiam ligeiramente quando entrelaçou os dedos nos meus.
Minutos depois, já estávamos na entrada do cemitério. O céu estava acinzentado, pesado, como se até o clima compreendesse o que estávamos prestes a fazer. Meus soldados cuidavam da segurança do perímetro com discrição. Mauro chegou com Samira, que veio ao meu lado com o semblante sério.
— Achei que você estivesse exagerando quando ligou — ela disse. — Mas agora que vi o estado dela... — lançou um olhar rápido para Mariana, que mantinha os olhos fixos no chão.
— Mariana está mais forte do que imagina — respondi. — Mas eu preciso de você aqui, Samira. Se aconteceu o que estou pensando, isso pode ser maior do que tudo o que enfrentamos até agora.
Ela assentiu, ajeitando a maleta de primeiros socorros ao ombro.
Dois homens começaram a trabalhar na abertura do túmulo. As pás entravam com dificuldade na terra molhada da chuva da noite anterior. Mariana ficou de costas, olhando para um jazigo mais adiante. Eu percebi.
Enquanto esperávamos, Samira tocou meu braço.
— Ezequiel... você está pálido. Está bem?
— Não. — admiti, encarando o túmulo. — A mãe dela... Eu a conheci. Tenho certeza disso, mas não sei como, nem quando. Sinto que tem algo errado com a minha memória, ainda.
— Precisa passar por um neurologista urgente. — assenti.
Ela me observou por alguns segundos.
O barulho de terra sendo empurrada parou. Um dos soldados me olhou e assentiu. Estava pronto.
Respirei fundo. Me aproximei lentamente, e Mariana se virou devagar, indo para perto de mim. Eu segurei sua mão.
— Está pronta? — perguntei.
Ela não respondeu de imediato. Depois, com a voz baixa, disse:
— A gente nunca está pronto pra isso. Mas sim. Vamos acabar com essa dúvida.
Assenti, e com um sinal meu, os soldados levantaram a tampa do caixão.
A tampa do caixão rangeu ao ser erguida. Todos ficaram em silêncio. O cheiro de madeira úmida misturado à terra encharcada pairava no ar. Mariana apertou com força minha mão, e então vimos. Não tinha nada.

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