Capítulo 104
Mariana Bazzi
Eu não conseguia pensar. Minha cabeça parecia girar, como se o mundo tivesse sido arrancado do eixo. Um túmulo vazio. Um passado que Ezequiel me escondeu — ainda que dissesse não lembrar. E agora, ele me levava até um apartamento onde, segundo ele, tudo poderia se encaixar.
Eu estava tensa. Meu coração batia tão forte que doía no peito. A raiva fervia sob minha pele.
— Você devia ter me contado. — murmurei, sentada ao lado dele no carro. — Desde o começo.
Ezequiel não respondeu. Apenas manteve o olhar fixo na estrada, o maxilar travado.
— Eu confiei em você, Ezequiel. Se tinha qualquer lembrança, qualquer fragmento... por que não disse nada?
— Porque eu não lembrava, Mariana. Mas agora, você vai entender.
O carro parou em frente a um prédio discreto, com fachada cinzenta e janelas espelhadas. Ezequiel desceu primeiro. Eu o segui com as mãos trêmulas, o coração pesado.
Subimos em silêncio. Quando ele destrancou a porta do apartamento, eu mal consegui respirar.
— Ela está lá dentro. Veja se reconhece — disse Ezequiel, abrindo caminho. Eu pensei em perguntar "quem", mas não quis outra decepção.
Meus pés pareceram colar ao chão por um segundo. Então, fui. Empurrei a porta do quarto e parei, congelada.
Era ela.
— Mãezinha...?
Minha voz saiu fraca, quase sem som. Estava deitada na cama e abriu os olhos ao me ouvir — olhos iguais aos meus — e sorriu, com lágrimas se formando.
— Mariana...?
— Mãezinha! Você está viva! Eu não acredito!
Me ajoelhei ao lado da cama, o corpo tremendo, a garganta embargada. Ela estendeu a mão e eu a agarrei com força, encostando meu rosto nela, chorando como uma criança.
— Você está viva... você está viva...
Ela chorava também.
— Filha... meu Deus, meu amor, você cresceu tanto... eu pensei que nunca mais veria você.
— Por quê? — perguntei, soluçando. — Por que me deixaram pensar que você estava morta?
Ela desviou o olhar, a dor evidente.
— Eu tenho tanto pra te contar, filha. Tantas coisas das quais me arrependo. Eu devia ter fugido com você quando tive a chance... devia ter sido mais forte, mais esperta.
— Shhh... calma, mãe. Não importa agora. Você está aqui comigo.
Ela acariciou meu rosto com dificuldade, como se quisesse memorizar cada traço.
— Eu pensava em você todos os dias. Todos.
A porta se abriu novamente. A doutora Samira entrou devagar, com um sorriso gentil.
— Ela está estável, mas precisa de calma. Nada de emoções fortes por muito tempo, Mariana.
Só então percebi que Ezequiel havia saído. Um aperto me atingiu no peito. Ele fugiu... ou quis me dar espaço? Parte de mim estava grata, mas outra parte — a que ainda sangrava — se sentia traída.
Samira verificou os sinais da minha mãe e fez anotações rápidas. Logo em seguida, um médico se aproximou, um homem baixo, grisalho, com olhos surpresos.
— Incrível... — murmurou. — Ela não sentava há meses. Estava desacreditada pelos médicos anteriores. E agora... olha isso.
Minha mãe se esforçava para sentar na cama, com o apoio de Samira.
— Eu só queria ver minha filha de novo. — disse ela, sorrindo fraco. — Isso me deu força.
Meus olhos marejaram mais uma vez.
— E eu vou ficar com você, mamãe. Não vou sair do seu lado. Nunca mais.
Ela me puxou com delicadeza, e eu a abracei com cuidado, como quem abraça um milagre.
No fundo da minha mente, uma parte ainda doía — a que lembrava que Ezequiel sabia. Que ele escondeu. Mas naquele momento, nada mais importava.
Eu tinha minha mãe de volta.
Estava ajoelhada ao lado da cama, com o rosto molhado pelas lágrimas que simplesmente não paravam. A minha mãe... viva. Ali, respirando. Olhando pra mim com os mesmos olhos que eu via no espelho, mesmo que marcados pelo tempo e sofrimento. Meus dedos mal acreditavam que tocavam a pele dela.
— Mãezinha? Você está viva! Eu não acredito... eu... — me joguei aos pés da cama, chorando feito uma criança.
Ela também chorava. Seus lábios tremiam quando ergueu a mão para tocar meu rosto.
— Mariana... minha filha... meu Deus, você está tão linda... tão madura... — a voz dela era fraca, mas cheia de emoção.
— Por que, mãe? Por que não me contou? Por que não me buscou? — meu tom ainda era carregado de dor.
— Eu me arrependo de tanta coisa. — ela passou a mão pelo meu cabelo com dificuldade. — Me perdoa... por não ter sido forte o suficiente... por não ter fugido com você quando ainda era pequena. Eu quis, eu tentei, mas ele... ele sempre soube onde me encontrar.

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