Capítulo 105
Mariana Bazzi
O quarto ficou silencioso, eu apenas ouvia a respiração tranquila da minha mãe. O efeito do sedativo finalmente a fez adormecer, os traços de dor em seu rosto suavizados por um descanso que ela merecia há tanto tempo. Fiquei ali por alguns minutos, apenas observando. Havia tanto que eu queria dizer, perguntar, reviver com ela… mas agora não era o momento.
Me levantei devagar, saí do quarto, fechei a porta com cuidado e segui até a varanda do apartamento.
E então eu vi Ezequiel.
Parado ali, como se tivesse sentido que eu viria. As mãos cruzadas nas costas, o olhar distante voltado para o horizonte. Mas quando percebeu minha presença, virou-se devagar. Seus olhos pousaram em mim com culpa.
Me aproximei, ainda com os olhos inchados de chorar, mas com o coração fervendo.
— Por que você não me contou desde o início? — perguntei, segurando a gola da camisa dele, como se aquilo pudesse me dar firmeza. — Por que me fez escolher entre a minha mãe e as meninas quando teve oportunidade? Por que, Ezequiel? Se sabia que ela não tinha morrido?
Ele ficou em silêncio por um segundo. Não desviou o olhar. Não recuou.
— Calma bonequinha... Você estava assustada, nem confiava em mim. Como eu faria isso?
— Você sabia que a Iris e a Soraya não eram minhas irmãs? — minha voz tremia, mas eu precisava perguntar. — Sabia que o Sidnei não era meu pai?
— Não — ele respondeu, firme. — Eu não sabia. Só agora, vendo sua mãe, ouvindo o que ela disse… algumas coisas voltaram. Memórias soltas, fragmentos. Mas naquela época, não. Eu não sabia.
— Então por que? — insisti, ainda o segurando.
Ele respirou fundo e me puxou devagar para um abraço. No início, resisti. Mas meu corpo estava tão cansado de lutar que cedi.
— É que eu não sabia se ela sobreviveria. Não sabia do Sidnei — ele murmurou, com a voz embargada. — Eu tinha medo. Medo de te dar esperanças, de te fazer sonhar com algo que talvez fosse destruído de novo. Então... eu quis te poupar de mais sofrimento. Me desculpa, Mariana. Depois acabei esquecendo tudo isso. Nem sabia que era ela aqui.
Fechei os olhos. O cheiro dele, aquele toque conhecido, trazia uma estranha sensação de conforto em meio ao pânico.
Eu o abracei de volta.
— Eu tô chateada, sim. Porque eu confiei em você. — Me afastei o bastante para olhar nos olhos dele. — Mas também tô grata e feliz. Porque agora eu sei a verdade. Porque ela está viva. E porque, no fundo, eu sei que você só queria me proteger.
Toquei o rosto dele com as duas mãos, firme.
— Mas eu preciso de uma coisa. A partir de agora, Ezequiel… promete que nunca mais vai mentir pra mim? Eu te garanto que posso suportar qualquer coisa, não precisa ter pena de mim.
Ele assentiu, sem hesitar.
— Eu prometo meu anjo. As coisas aconteceram tão rápido que nem pude calcular tudo.
Ouvi uma tosse no quarto e imediatamente voltei pra ver minha mãe.
O coração acelerado, meio por susto, meio pela necessidade urgente de garantir que ela estava bem. Quando entrei, vi minha mãe tentando se sentar na cama, com um olhar sonolento, mas inquieto.

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