Capítulo 106
Mariana Bazzi
Minha mãe segurava minha mão com carinho, mas seus olhos cansados ainda estavam úmidos.
Respirei fundo, sentindo a garganta fechar. Ela me observava em silêncio, com um olhar cheio de ternura que eu nem lembrava de ter sentido antes.
— Mãe… tem uma coisa que eu preciso te contar. — Minha voz saiu baixa, embargada. — Sobre o que aconteceu comigo.
Ela apertou minha mão, encorajando.
— Eu… — pausei, tentando organizar os pensamentos — passei muitos anos achando que o Sidnei era meu pai. E isso só tornava tudo mais confuso, mais doloroso. Porque ele…
— Ele o que?
Baixei o olhar, engolindo o nó na garganta.
— Ele abusava de mim.
A mão da minha mãe tremeu, e vi seus olhos se arregalarem com o choque.
— Ele me tratava como se eu fosse um objeto. Você vivia presa naquele quarto, trabalhando com costura, e eu mal tinha acesso. Quando eu vi que conseguiria entrar ele me arrastou e me levou para vender para aquele maldito cassino. Eu tinha dez anos, mãe.
Ela soltou um soluço, levando a mão livre à boca.
— Meu Deus… ele me disse que havia te levado a uma instituição porque não era obrigado a te manter. Eu trabalhava dia e noite pra ele te trazer de volta, pra aumentar os lucros, mas nunca imaginei uma coisa dessas.
— Foi um inferno aquele lugar… — fechei os olhos, tentando afastar as imagens. — Homens. Muitos. Olhares, toques. E eu só queria sumir. Queria morrer, mas eu sobrevivi.
Ela balançava a cabeça, o rosto tomado pela dor.
— Me perdoa. Me perdoa, filha… se eu soubesse… teria dado um jeito de matá-lo. Eu deveria ter feito isso.
— Eu sei, mãe — segurei o choro e tentei sorrir. — Eu sei que você tentou, eu entendo.
— Naquele noite que fui te buscar na instituição foi um dos dias mais felizes da minha vida e também um dos mais tristes. Eu acreditei que você tivesse ficado todos aqueles anos lá e iria te levar embora, mas assim que você entrou no carro eu entendi um pouco do que estava acontecendo, só que pensei que estava começando ali, e não que ficou desde criança. Meu Deus do céu... Ele mentiu que tinha te conseguido um emprego.
— Sim, mãe. Ele te usou pra me trazer de volta para o inferno. Mas o que importa é que Ezequiel me resgatou e desde então eu comecei um tratamento com uma doutora maravilhosa. Ela está me ajudando a entender o que aconteceu comigo…
— Fui diagnosticada com androfobia. Um medo intenso… irracional de homens.
Ela assentiu com lágrimas escorrendo, sussurrando:
— Faz sentido…
— Mas estou melhorando, a doutora acredita que é um processo. Eu… passei por uma transformação e já me sinto outra.
Me inclinei e encostei a testa na dela, como se nossas dores pudessem se unir ali e se transformarem em força.
— E tem mais uma coisa… — murmurei, sorrindo de leve. — Eu estou noiva.
Ela piscou algumas vezes, surpresa.
— Do Ezequiel.
Sua expressão se suavizou de imediato, como se aquilo aquecesse o coração dela de um jeito especial.
— Ele é um homem bom — ela disse, com convicção. — Você tem sorte… mas ele também tem. Não perca a oportunidade de ser feliz meu amor.
Sorrimos e conversamos mais.

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