Capítulo 112
Ezequiel Costa Júnior
Desci as escadas com passos tranquilos, mas a mente alerta. Depois da visita de Sara, uma curiosidade inquieta tomou conta de mim. Eu já sabia que Mariana era determinada — o suficiente pra sobreviver a uma chacina, proteger a mãe e ainda se jogar de cabeça numa vida que nunca escolheu. Mas uma coisa é determinação. Outra é desempenho. São raros os que conseguem unir os dois em tão pouco tempo.
Quando empurrei a porta da área de tiro, encontrei exatamente o que Sara descreveu… e mais.
Mariana estava sozinha, quase uma da tarde. A Glock firme nas mãos, a silhueta com postura de combate, pés plantados no chão como se fossem raízes. Ela mirava, disparava e recarregava com uma fluidez que me tirou o ar por alguns segundos.
Pá. Pá. Pá.
Três tiros certeiros no centro do alvo. Recarrega. Pá. Pá. Pá. Mais três. Todos no mesmo padrão.
Me aproximei sem dizer nada. Não queria atrapalhar. Estudei os movimentos dela como um técnico observa uma atleta prestes a bater um recorde. E, de certa forma… era isso mesmo.
A precisão dela não era mais sorte ou impulso. Era repetição consciente. Técnica absorvida em tempo recorde. Cada tiro dizia algo: “Estou entendendo.” “Estou aprendendo.” “Estou pronta.”
Seus olhos não piscavam diante dos alvos. E o mais impressionante: não havia nenhum treinador por perto. Nem Sara. Nenhum soldado dando ordens. Nenhuma supervisão.
Ela simplesmente… continuava.
— Impressionante… — murmurei, quase para mim mesmo. — Nunca tivemos alguém com esse nível de resposta tão cedo. Nem de perto.
Foi então que ouvi passos atrás de mim. Era Sara.
Ela parou ao meu lado, provavelmente sentindo o peso da minha expressão.
— Agora você entende? — ela murmurou, cruzando os braços, o olhar fixo em Mariana. — Eu tentei fazer ela parar. Mas ela não escuta.
Fiquei mais um tempo observando. Mariana havia mudado o tipo de arma. Testava diferentes modelos como quem testa uma extensão de si mesma.
— Nunca vi nada assim. — comentei, ainda atônito. — Nem nos nossos melhores recrutas.
— Pois é. — Sara bufou. — E se eu tento interferir, ela me ignora como se eu fosse invisível. Me dá ordens como nunca deu.
— Não é pessoal. — falei. — É foco. Obsessivo, talvez. Mas… estratégico.
Me afastei um pouco da porta, chamando Sara com um gesto de cabeça.
— Se você quiser continuar sendo útil pra ela, vai ter que subir o nível.
— Eu percebi. Mas como? Ela já tá acima da média.
— Você precisa mudar o tipo de treino. Mais dinâmico, mais real. Situações de combate, movimentos sob pressão. Treinos em dupla, alvos em movimento, decisões rápidas.
— Isso é pra soldado formado.
— Ela não é uma soldada comum. E, se você não adaptar o método, ela vai procurar outra pessoa que consiga.
Sara respirou fundo, absorvendo.
— Isso não é só sobre treino, né?
Balancei a cabeça.
— Não. É sobre liderança. Ela tá assumindo uma postura de quem quer comandar. De quem precisa estar à altura de tudo que carrega. E você, Sara… ou acompanha esse ritmo, ou vai ficar pra trás.
Ela não respondeu. Mas seus olhos estavam diferentes. Mais atentos, firmes.

Comentários
Os comentários dos leitores sobre o romance: Aquela que o Don não pôde deixar partir