Capítulo 113
Ezequiel Costa Júnior
Saímos da área de tiro sem pressa. O olhar de Mariana dizia tudo: ela estava em guerra. Com o mundo, com o passado, com o próprio corpo.
Segui ao lado dela até o corredor principal.
Ela arqueou uma sobrancelha, sem perder o porte rígido.
— O que você queria falar?
— É sobre a Sara… e sobre você. — falei, observando sua reação. — Olha, eu sei que você é forte. Mais forte do que a maioria que já passou por aqui. E sei que odeia perder tempo. Mas isso… — fiz um gesto com a cabeça, apontando para a área de onde acabamos de sair — Não é só sobre aprender a atirar. É sobre respeitar os limites do corpo. Sobre confiar. Você precisa cuidar de tudo.
Ela apertou os lábios, sem responder. Um gesto típico dela quando está resistindo a ouvir.
— Mariana, você precisa deixar a Sara te ajudar. Ela é boa no que faz. E você não precisa carregar tudo sozinha.
— Eu não tô carregando tudo. Só tô fazendo o que tem que ser feito. — rebateu, firme.
— Eu sei, e admiro isso. Mas obsessão disfarçada de disciplina ainda é obsessão. Você não pode atropelar o processo. Não pode esquecer de comer, de descansar, de respirar. — fiz uma pausa antes de continuar. — Vai dar certo. Você já está indo muito bem. Melhor do que qualquer um esperava. Inclusive eu.
Ela olhou pra frente por um tempo. A rigidez no maxilar suavizou um pouco. Talvez pelas palavras, talvez pelo modo como eu disse. Talvez por ela saber que, se tem alguém nesse lugar que fala com ela como homem, e não como comandante… sou eu.
— Eu só… não quero errar. Nem parecer fraca.
Parei de andar. Ela também.
— Você não tem ideia do quanto já passou longe da palavra fraca. — disse, olhando bem nos olhos dela. — Mas se continuar tratando o corpo como uma máquina sem pausa, vai travar. E aí sim, vai cair. E não vai ser fraqueza… vai ser burrice.
Ela soltou uma risada curta, nasalada. O tipo de riso que ela usava pra disfarçar quando uma verdade batia fundo demais.
— Entendi o recado, Senhor Costa Júnior.
— Ótimo. E a Glock agradece também. — brinquei, retomando o passo.
— Só espero que você não tenha ciúmes da faca também… porque eu tenho andado muito com ela de ontem pra hoje. — me encarou com um sorriso diferente e mordeu o lábio inferior.
— Se eu descobrir que você tá dando nome pra ela, aí a gente vai ter que conversar sério.
Ela gargalhou dessa vez. Agarrei sua cintura e encostei na parede.
— É brincadeira meu anjo.
— É claro que é — ergueu a mão colocando no meu rosto. — Não estou acostumada com esse ciúme todo.
— Te deixei mal acostumada, mas estou de olho — a beijei, puxando sua cintura pra mim. —Porque mesmo armas automáticas… também precisam de manutenção.

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