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Aquela que o Don não pôde deixar partir romance Capítulo 116

Capítulo 116

Ezequiel Costa Júnior

Dirigi em silêncio por uns minutos. Mariana olhava pela janela, o reflexo das luzes da rua iluminando de leve seu rosto. Ela parecia tranquila, mas eu conhecia cada detalhe daquele olhar. Quando Mari ficava quieta demais, era porque algo estava gritando por dentro.

— Está tudo bem? — perguntei baixo.

Ela demorou um segundo, mas respondeu, ainda sem me encarar:

— Tá sim. Pelo menos agora a Soraya não vai mais incomodar a gente, nem a Iris.

Assenti, embora eu soubesse que não era só isso. Mantive os olhos na estrada por um tempo, antes de arriscar de novo:

— E por que o seu olhar ficou triste, então?

Dessa vez, ela virou o rosto devagar. Os olhos dela estavam limpos, sinceros, mas carregavam uma sombra no fundo. Algo entre decepção e saudade do que nunca teve.

— Porque ela é interesseira demais… — murmurou. — Se fosse comigo, se eu tivesse encontrado meu pai depois de tudo, eu queria saber tudo sobre ele. Ia encher ele de perguntas, não olhar pro relógio que ele usa, pro carro que dirige. Isso não importa… o que importa é a história, o aconteceu.

Apertei os lábios e estiquei a mão, pousando sobre a perna dela com cuidado. Era o meu jeito de mostrar que eu estava ali.

— Vem comigo. — murmurei de repente, encostando o carro numa ponte mais afastada da estrada principal.

Desci primeiro, contornei o carro e abri a porta pra ela. Mariana hesitou, mas aceitou minha mão. Quando os dedos dela tocaram os meus, senti aquele calor conhecido. Aquele que só ela me trazia.

A brisa da tarde batia no rosto dela, bagunçando os fios do cabelo enquanto caminhávamos até o meio da ponte. O rio lá embaixo refletia o céu sem lua.

— Tô investigando tudo isso, Mari. — comecei, com calma. — Eu, Mauro, todo mundo que confio. Encontramos o lugar onde vocês moravam antes de tudo acontecer. Bom, você na barriga. Sua mãe explicou as coordenadas certinhas, e… segundo os registros… seu pai morreu.

Ela respirou fundo, engoliu em seco. Eu vi a esperança morrendo aos poucos naquele olhar. Então completei:

— Mas…

Ela virou o rosto pra mim, com os olhos arregalados.

— Mas?

Assenti, mantendo o olhar firme no dela.

— O corpo não estava no local onde a família enterrou. Nossos homens já abriram essa manhã.

Os olhos dela brilharam com expectativa e confusão.

— Família? — sussurrou. — Eu tenho mais alguém?

Suspirei. Coloquei as mãos no bolso, antes de olhar de volta pra ela.

— Minha bonequinha… — falei baixo, quase como um pedido de cuidado. — Eu não confiei no que ouvi do Mauro. Seu pai… só tinha uma tia. Irmã da mãe dele. Eu tentei contato com ela, mas ninguém respondeu. Os outros… ou morreram, ou só apareceram porque ouviram falar que havia dinheiro envolvido. Não sei atenção a isso, porque não vale a pena.

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