Capítulo 117
Mariana Bazzi
Assim que entramos em casa, Ezequiel me lançou aquele olhar de quem ainda tinha planos pra noite. Sorri, fingindo não entender a intenção nos olhos dele, e fui direto procurar minha mãe.
Ela estava sentada no sofá da sala com a doutora Samira, que parecia explicar algo em voz baixa. As duas levantaram os olhos quando me viram entrar. O coração apertou no peito, daquele jeito que só o olhar de mãe consegue provocar.
— Mãezinha… — falei, e meu sorriso veio naturalmente. Me aproximei e a abracei com força, sentindo seu perfume simples e conhecido, que me remetia à infância, mesmo que boa parte dela tenha sido roubada. — Que bom ver você assim, mais forte.
Ela sorriu com carinho e afagou meu rosto.
— A doutora Samira tem me ajudado bastante. Às vezes a cabeça ainda pesa, mas... acho que é normal depois de tudo.
— Você é incrível — falei, sentando ao seu lado — Obrigado doutora.
— É um prazer minha querida, Mariana.
Samira nos deixou a sós depois de um tempo, dando um leve aceno. Olhei pra minha mãe, que ajeitava a manta nas pernas, e aproveitei o momento mais calmo pra tocar em algo que ainda pesava no meu peito.
— Mãe... — comecei, hesitante. — Sobre o meu pai... O Amir. Você não tem nenhuma foto dele? Nenhuma mesmo?
Ela me olhou com doçura, mas balançou a cabeça.
— Não, filha... Sidnei destruiu tudo. Tudo que me lembrava dele. Queimou fotos, cartas que escrevi e ele encontrou, roupas. Tudo. Mas... — suspirou, olhando pro vazio por alguns segundos antes de continuar — eu posso te descrever.
Me aproximei um pouco mais, e ela sorriu, como se revivesse uma memória gostosa.
— Amir era doce, gentil. Mesmo com todas as dificuldades, ele sempre achava um jeito de me fazer sorrir. Mantinha o cabelo raspado porque era mais barato manter assim…, mas pra mim, ele era o rapaz mais bonito da cidade. Tinha um furinho discreto na bochecha esquerda, uma boca bonita… forte, bem desenhada.
Ela sorriu, e seus olhos brilharam com a lembrança.
— O corpo dele era malhado de tanto trabalhar, sabe? Braços firmes, costas largas. E o tom dos olhos era castanho, igual do cabelo... Que era igual aos seus, filha.
Fechei os olhos por um instante, tentando montar aquela imagem em minha mente. Um lampejo estranho surgiu... a figura do pai da Soraya. Malcon. O jeito como ele falava, aquele sorriso sutil e a marca discreta no rosto — ou seria o furinho — na bochecha.
— O que foi, filha? — ela perguntou, notando meu silêncio.
— É que... o pai da Soraya apareceu.
Ela se virou de vez pra mim, surpresa.
— Mesmo? Mas... como? O Sidnei não tinha matado ele também?

Comentários
Os comentários dos leitores sobre o romance: Aquela que o Don não pôde deixar partir