Capítulo 119
Mariana Bazzi
Voltamos pra casa. Ezequiel dirigia em silêncio, mas eu sabia que sua mente estava a mil.
Sentamos por um tempo no sofá da sala. Ezequiel atendeu uma ligação rápida com Mauro e depois murmurou baixo:
— Vasculhamos tudo. Sidnei não estava lá. Deve ter mandado os homens e ficado só olhando de longe... se é que estava perto.
Assenti devagar, já prevendo isso. Mas a confirmação veio logo em seguida.
— Interrogaram dois dos rendidos. Com um pouco de… pressão, eles confessaram. Trabalham direto para Sidnei. Tentativa de golpe, de se infiltrar. — Ele respirou fundo. — Só não esperavam nós, por você.
Olhei pra ele com um meio sorriso, cansada, mas firme.
— Vamos encontrá-lo. Eu sei que sim.
Ele riu de leve, massageando a nuca. Parecia tão exausto quanto eu. A adrenalina cobrava agora sua conta. Subimos juntos, em silêncio. Enquanto ele entrava no banheiro, escutei o som do chuveiro sendo ligado. Tirei a blusa, deitei de lado ainda com a calça e os cabelos soltos, e fechei os olhos só por um instante antes de tomar um banho.
Apaguei.
**
Acordei com a luz fraca da manhã filtrando pelas frestas da cortina. O travesseiro cheirava a Ezequiel. Estiquei o braço, mas ele não estava mais na cama. Tomei um banho, vesti uma camiseta dele jogada sobre a cadeira com outra legging e desci.
Ele estava na cozinha, mexendo o café, descalço e com o cabelo ainda molhado. Quando me viu, sorriu de lado.
— Bom dia, dorminhoca.
— Bom dia… — murmurei, espreguiçando. — Que horas são?
— Quase oito. Achei melhor não te acordar. Você precisava descansar.
Sentei no balcão e aceitei a xícara que ele me passou. Depois, ele se apoiou ali, de frente pra mim, e soltou:
— Conversei com Malcon hoje cedo.
Levantei uma sobrancelha, surpresa.
— É?
— Ele nos convidou pra um jantar. Hoje à noite. Disse que Soraya pediu que você levasse a Iris também.
Sorri com aquilo. Sincero, leve.
— Eu gosto da Iris. E quero ver o Malcon de novo. Tenho perguntas… acho que ele tem algumas respostas.
— Foi o que imaginei — disse ele, tomando um gole do café. — Mas fica tranquila, vai ser um jantar, nada demais. E lembre-se de tudo que eu disse.
— Nada demais nunca é “nada demais” quando a gente tá envolvido.
Ele riu, balançando a cabeça. Depois olhou pro relógio.
— Preciso ir à clínica. Tenho um paciente agendado. Mas volto antes do almoço.
Assenti, já pegando o celular.
— Vou mandar mensagem pra Sara. Quero começar o treinamento o quanto antes.
— Bom treino. Ela é mais intensa do que parece.
— Não tenho dúvida — respondi, digitando a mensagem, mas não precisei enviar.
Assim que Ezequiel abriu a porta da frente pra sair, a voz soou imediatamente:
— Bom dia, senhora! Estou pronta para começar o treinamento.
Parei no meio do gole de café, olhando em direção à entrada.
Sara estava lá, impecável, de roupa preta, com o cabelo preso em um coque militar, e um sorriso confiante no rosto.
Arqueei uma sobrancelha, surpresa.
— Uau… você está mais pontual do que eu imaginava.
— Sempre, senhora — ela respondeu firme. — Hoje vamos começar com o básico: posicionamento, reação, e... socos. Vi ontem que a senhora tem talento natural. Mas podemos refinar isso. Fazer exercícios para fortalecimento do seu corpo.
Sorri, agora completamente desperta.
— Então vamos começar. Tenho um jantar à noite, mas até lá... quero estar um passo mais preparada. Ou dois.
Ezequiel riu atrás de mim.
— Tenta não quebrar a cara de ninguém antes do jantar, bonequinha.
Virei o rosto, piscando pra ele.

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