Capítulo 120
Ezequiel Costa Júnior
O sol já havia se posto quando voltei pra casa. O dia foi longo, entre atendimentos na clínica e uma reunião rápida com Mauro para alinharmos os próximos passos. Mas, mesmo com a cabeça cheia, havia uma coisa — ou melhor, uma pessoa — ocupando meus pensamentos o tempo todo: Mariana.
Subi as escadas devagar, sentindo um misto estranho de cansaço e ansiedade. Talvez fosse o jantar com Malcon e Soraya. Ou talvez fosse a lembrança dela, suada e determinada, treinando com Sara pela manhã. Aquela mulher me tirava do eixo de formas que ninguém jamais conseguiu.
Quando me aproximei do quarto, a porta estava entreaberta. E então eu a vi, mas parei.
Simplesmente parei.
Ela estava de costas para o espelho, ajustando um brinco pequeno e elegante. O vestido dourado caía com perfeição sobre seu corpo, delineando suas curvas com um refinamento discreto, quase tímido — mas impossível de ignorar. O tecido tinha um brilho sutil, como se captasse a luz de um jeito só dela. Os cabelos estavam lisos, caindo como um rio escuro e brilhante até as costas. A maquiagem era delicada, realçando o olhar que sempre me tira do eixo.
Respirei fundo, mas o ar parecia preso na garganta.
— Meu Deus... — soltei, quase num sussurro.
Ela se virou devagar e sorriu ao me ver parado ali, imóvel como um idiota na porta. Tive que piscar algumas vezes antes de conseguir me mexer. Me aproximei, puxado por alguma força que ignorava qualquer lógica.
Coloquei a mão em seu cabelo com cuidado, deixando os dedos deslizarem por aquele liso impecável.
— Você está... inacreditável. — Minha voz saiu baixa, rouca. — Eu... não sei nem o que dizer.
— Sara e a doutora Samira me ajudaram — disse ela, dando de ombros com um sorriso leve, como se aquilo tudo fosse corriqueiro. — Eu só fiquei parada enquanto elas me transformavam.
— Isso não é uma transformação. — Aproximei meu rosto e encostei a testa na dela por um instante. — Isso é você. Só você. E, sinceramente, acho que nem o céu tinha se preparado pra isso.
Ela sorriu com um brilho nos olhos, tocando meu peito com uma das mãos.
— Está exagerando.
— Não estou, e você sabe.
Ficamos ali por alguns segundos, em silêncio, apenas nos olhando.
— Acho que vou ter que ficar mais perto de você a noite toda só pra garantir que nenhum idiota tente se aproximar — murmurei.
Ela riu, aquele som que sempre me acalma por dentro.
— Acha que algum idiota teria coragem?
— Você ainda não entendeu o efeito que tem no mundo, Mariana Bazzi.
Ela ergueu uma sobrancelha, provocativa. Colocou a mão sobre meu ombro.
— E no Don? Qual o efeito causo nele?
Aproximei os lábios do ouvido dela, sem pressa.
— No Don... você é terremoto. E calmaria ao mesmo tempo.
Ela suspirou e perguntou:
— Vamos descer?
— Vamos. Mas aviso desde já... vai ser difícil tirar os olhos de você.
Ela sorriu novamente. Então descemos as escadas e fomos até o carro. Decidi não dirigir, para ficar mais tempo com ela no banco de trás.
O estalo seco da correntinha partindo me fez reagir instintivamente quando iríamos descer. Segurei o colar antes que caísse no chão. Meus dedos se fecharam sobre a pequena gota de ouro, fria como uma lembrança antiga.
— O colar do meu pai! — Mariana exclamou, aflita, os olhos marejando — Sou muito descuidada.
Virei-me para ela com calma.
— Deixe comigo — falei num tom firme, mas suave. — Depois vou mandar consertar. Pode ficar tranquila.
Ela me olhou por um instante, como se quisesse ter certeza de que podia confiar. Então sorriu e assentiu. Guardei o colar no bolso do paletó, com o cuidado de quem guarda mais do que um objeto. Aquilo tinha peso para ela. História.
Descemos do carro e, assim que Mariana pisou na calçada, avistou Iris saindo do outro veículo. Pedi aos soldados que fossem buscá-la, e, como sempre, cumpriram a missão com pontualidade. As duas se abraçaram com pressa, mas com carinho. Sabia que a presença de Iris dava forças à Mariana.
Malcon mora numa mansão. Observei tudo antes de entrarmos. As colunas brancas de mármore. As portas douradas reluziam como templos. E as esculturas no jardim eram caríssimas.
Meus olhos percorreram o entorno. Era o tipo de lugar que grita por vigilância. Por isso trouxe uma equipe grande. Confio nos meus homens, e confio ainda mais na presença de Mauro ao meu lado.
— Fique atento — cochichei ao cruzar por ele. — Qualquer coisa fora do normal, quero saber imediatamente.

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