Capítulo 130
Mariana Bazzi
A raiva me mantinha firme. Malcon gritava no fundo, mas meu cérebro já nem registrava mais. O sangue dele na minha mão era só o lembrete do quanto já tínhamos nos vingado.
Ezequiel se afastou, deu ordens rápidas a Sara, que assentiu com aquele olhar de soldado calejado. Ela ficaria. Malcon estava sob nossa custódia, ou melhor, sob as mãos dela — o que significava que ele provavelmente ia desejar estar morto antes da meia-noite.
— Possíveis compradores podem estar por perto — Ezequiel disse em voz baixa, encostando-se à parede ao meu lado. — Sidnei pode até dar as caras. Essa movimentação pode atrair gente maior do que ele.
— Que venham — murmurei. — Estou pronta.
— Eu sei que está. — Ele me encarou. — Por isso você vem comigo.
— Certo. Só que vamos levar a Iris e a Samira conosco...
— Tudo bem.
**
Fomos em vários carros com nossos soldados. Descemos perto de um dos galpões abandonados que antes pertenciam à Deluxe — agora silenciosos, mas vigiados. Havia homens armados à distância, todos nossos. Cada canto do perímetro estava sob mira. Ninguém escaparia.
Eu desci com a pistola na mão e o olhar fixo na porta enferrujada do antigo armazém. Iris e Samira vieram comigo.
Soraya estava lá dentro. Sozinha, segundo os últimos sinais das câmeras. Soraya nunca foi fraca. Era esperta, escorregadia, e mais teimosa que eu. Eles deviam estar arrependidos de tê-la mantido viva até agora. Só que eu não a deixaria lá.
Ezequiel parou ao meu lado.
— Quer fazer isso do seu jeito ou quer que eu quebre a porta?
Sorri.
— Eu faço.
Chutei a porta com força. Um, dois homens surgiram e foram abatidos antes que abrissem a boca. Um terceiro correu, mas levou um tiro no joelho. Ele gritou e gritei de volta com mais intensidade.
Avançamos.
Os corredores estavam escuros, e o cheiro era horrível, de ferrugem e mofo.
A entrada ainda estava quente, copos derrubados. Uma cadeira girava devagar. Havia cigarros acesos no cinzeiro e fichas espalhadas no chão. Tudo gritando: "alguém saiu daqui às pressas".
— Eles estavam aqui — murmurei.
— E saíram, não faz uma hora. — Ezequiel confirmou, apontando as marcas de pneus recentes na lateral do prédio.
Corri em direção à sala de segurança. Um dos soldados veio ao meu encontro.
— Não encontramos nenhum corpo, nem sinal de confronto. Tudo sugere evacuação coordenada e rápida.
— Onde está a central de monitoramento? — perguntei, já com a raiva fervendo sob a pele.
— Segundo andar, ao fundo.
Corri escada acima. Meus dedos tremiam de adrenalina e ódio. Ezequiel veio logo atrás. Quando entrei na sala escura, as telas estavam acesas, mas pretas. Apenas o reflexo do meu próprio rosto olhando de volta.
— Tinha câmeras em cada sala — gritei para o soldado mais próximo. — Onde estão os registros?
— Foram apagados. Mas conseguimos salvar uma pequena parte do backup automático. As últimas imagens de Soraya foram de trinta minutos atrás. Ela estava amarrada a uma cadeira... sozinha. Depois, tudo ficou escuro. Alguém desligou o sistema direto da fonte.
Peguei o controle e rodei as imagens salvas.
Lá estava ela. Olhos alertas, mordendo a amarra dos pulsos.
Mas então... uma silhueta apareceu atrás dela. Um homem.
A imagem congelou antes de revelar mais.
— Consegue puxar a imagem anterior? — perguntei, apertando os dentes.

Comentários
Os comentários dos leitores sobre o romance: Aquela que o Don não pôde deixar partir