Capítulo 131
Mariana Bazzi
O céu já escurecia quando chegamos em casa.
Ezequiel desceu primeiro, levando os dois rottweilers com a calma de quem já tinha lidado com feras antes. Ele ia cuidar deles, montar um espaço seguro no terreno ao lado — já tinha dado ordens antes mesmo de sairmos do carro.
— Vou garantir que eles fiquem tranquilos — disse ele. — Precisam de tempo. Igual a gente.
Assenti em silêncio. Ele sabia o que fazer, e eu precisava de um segundo pra respirar.
Entrei em casa, atravessei o corredor longo até o quintal e vi minha mãe no jardim, mexendo nas plantas. Ela virou devagar, apoiando-se numa bengala que já nem usava direito.
— Filha... — sorriu com leveza. — Que bom que voltou.
Me aproximei, ainda com a roupa suja e a arma no coldre. Beijei sua testa e sentei ao lado dela no banco de madeira.
— Você está melhor... — comentei, observando como ela caminhava com firmeza. — Já anda sozinha.
— E vou melhorar mais. Sinto isso.
— Vai sim...
Sorri de canto, mas meus olhos estavam distantes. Ela notou na hora.
— O que foi, Mariana? O que aconteceu?
Fiquei em silêncio por um momento, olhando pro jardim como se fosse encontrar respostas nas folhas verdes. Então respirei fundo.
— Aquele homem... o que apareceu dizendo ser pai da Soraya e pensei ser meu pai... era um farsante.
— Meu Deus... Eu imaginei.
— Ele se aproveitou da situação. Sabia que Soraya aceitaria fácil, pensou que eu estava vulnerável. Disse que era o pai dela só pra ganhar confiança e levá-la comigo e quem mais conseguisse pra outro comprador. Eu e ela quase acreditamos. Por pouco... por muito pouco ela não foi vendida de novo.
Minha voz falhou por um instante.
— Mas percebeu a tempo? — minha mãe perguntou, aflita.
— Sim, a tempo. E ele... ele já está pagando por isso. Através dele a gente vai chegar a outros. Outros filhos da puta que continuam ganhando dinheiro em cima de dor e mentira.
Minha mãe me olhou com ternura. Seus olhos, cansados, mas ainda cheios de firmeza, se fixaram nos meus.
— Mariana... se seu pai estivesse vivo, certamente você saberia, minha filha. Você veria seus traços no rosto dele.
Engoli em seco. A palavra “pai” ainda doía. Ainda era uma ferida aberta.
— Amir tinha um coração gigante. Seria fácil de identificar. Ele era... diferente. Você sentiria.
— Mas e se...
— Não. — Ela apertou minha mão. — Ele morreu, meu amor. Você precisa aceitar. Não acredite em mais nenhuma mentira que te contarem. Amir já teria nos encontrado se estivesse vivo. Ele nunca deixaria você crescer sem saber quem ele era.
Fechei os olhos por um segundo. Deixei que aquelas palavras me atravessassem.
Talvez eu só quisesse que alguém preenchesse esse espaço vazio. Talvez Soraya também.
— Eu só não quero perdê-la, mãe. Soraya pode ser difícil, mas... ela é minha irmã dentro de mim. Está com Sidnei e isso me deixa aflita.
— Ela vai voltar. Ela só precisa se lembrar disso.
Assenti, ainda olhando para o céu. O vento soprou forte, mexendo as folhas ao nosso redor.
— Bom, apesar de tantas notícias ruins, uma encheu meu coração de alegria, Ezequiel me pediu em casamento. A cerimônia será na próxima semana. Eu vou me casar, mãezinha! — apertei mais firme sua mão.
— Ah! Que alegria, Mariana! Ezequiel é um homem maravilhoso. Vocês serão muito felizes, tenho certeza. — Sorriu com seus olhos brilhando.

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