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Aquela que o Don não pôde deixar partir romance Capítulo 133

Capítulo 133

Sara

A casa de Malcon estava exatamente como eu queria.

Os gritos dele ecoavam de tempos em tempos, abafados pelas paredes reforçadas do porão. Os homens da Zion Tríade sabiam o que faziam. Malcon já tinha entregado mais do que imaginava ser capaz, e ainda assim eu sabia que havia mais.

Na sala, o monitor exibia as câmeras de segurança. Uma delas mostrava seu corpo suado, machucado e preso à cadeira. A outra filmava a entrada da casa, os telefones — fixo e celular — estavam grampeados, esperando algum comprador idiota cair na armadilha.

Apoiei os cotovelos nos joelhos e encarei a tela do celular com atenção. Uma notificação. Mensagem vazia, mas com sinal de rastreio. Eu já sabia: alguém estava tentando confirmar se Malcon ainda vivia. Os vermes do submundo eram previsíveis.

Me levantei e caminhei até a janela. A noite estava abafada, o ar pesado de tensão. Suspirei, tentando aliviar o peso entre as costelas. Não dormia havia dois dias. Mas não podia parar agora. Mariana contava comigo e Ezequiel me deu essa ordem.

Foi então que ouvi passos firmes atrás de mim.

Me virei, já com a mão perto da arma no coldre. Mas assim que vi aquele maldito par de olhos castanhos, abaixei a guarda — só um pouco.

— Aaron… — murmurei, cruzando os braços. — Deixa eu adivinhar… cansou de brincar de cão de guarda e veio me encher? Ou tá precisando aliviar alguma coisa?

Ele não respondeu de imediato. Só me encarou com uma expressão séria demais. Diferente do sorriso sacana que sempre estampava a cara dele quando me via.

— Don Ezequiel me mandou. — Sua voz era firme. — Pra te ajudar a manter tudo sob controle. Você precisa descansar, Sara.

Arqueei uma sobrancelha.

— E você virou babá desde quando?

Ele ignorou minha provocação. Foi até os monitores, examinou as imagens como se já estivesse por dentro de tudo. Franzi o cenho, desconfiada. Aaron era muita coisa — canalha, briguento, impulsivo — mas burro, definitivamente, não era.

— Ezequiel acha que isso aqui vai dar merda? — perguntei, sem rodeios.

Aaron me olhou por cima do ombro.

— Ele acha que você está no seu limite. E sabe que, quando você quebra, não sobra nada pra juntar depois. — Parou por um segundo, o olhar suavizando. — Eu não vim te atrapalhar, Sara. Vim segurar as pontas pra você respirar.

Aquela resposta me desarmou mais do que qualquer frase suja que ele já tinha soltado.

Desviei o olhar, irritada com a própria reação.

— Não precisa fingir que se importa. — Minha voz saiu mais amarga do que eu gostaria.

— Eu não finjo nada com você. — Ele se aproximou. — E você sabe disso.

O silêncio se esticou entre nós. O som de um novo toque do celular me trouxe de volta. Atendi em viva-voz. Uma voz masculina, mascarada, perguntou por uma encomenda de “peso”.

— É ele. — sussurrei para Aaron, que já pegava um bloco para anotar.

A voz pediu um local de entrega. Dei um endereço falso, como planejado, e marquei o encontro para dali a duas horas. Assim que desliguei, Aaron já estava dando ordens pelo rádio.

— Vamos pegar esse comprador — ele disse. — E depois, você vai dormir. Nem que eu tenha que te amarrar pra isso.

Revirei os olhos.

— Sempre com esse impulso de dominar, né?

— Não. — Ele sorriu de leve, pela primeira vez naquela noite. — Só com você.

Suspirei, cansada demais pra brigar.

O ponto de encontro ficava em um galpão abandonado nos arredores da cidade, uma zona esquecida onde ninguém faria perguntas — o tipo de lugar perfeito para uma transação suja. Chegamos antes do horário marcado. Parte da equipe já havia se posicionado nos telhados e becos próximos. Eu e Aaron ficamos em uma van discreta, a poucos metros, monitorando tudo.

No relógio do painel, os minutos avançavam devagar. Eu estava impaciente, tamborilando os dedos no joelho. Aaron, ao meu lado, se manteve calado, olhos fixos nas câmeras e no rádio.

Às 02h03, dois homens apareceram. Desceram de um carro velho, estavam nervosos, olhando para os lados, mas não estavam armados — pelo menos não visivelmente. Um deles usava um boné baixo e roupas simples. O outro, um sujeito magricela, parecia mais um entregador de app do que um comprador de vidas humanas.

— Esses são os caras? — murmurei, estranhando. — Isso tá errado…

Aaron concordou com um movimento sutil de cabeça.

— Equipe dois, aproximem. Peguem os dois, vivos. Quero respostas — ordenei pelo rádio.

Dois homens da Zion saíram das sombras. Os compradores mal tiveram tempo de reagir. Um deles tentou correr, mas foi derrubado com precisão. Nenhum disparo. Nada fora do plano.

Enquanto eles eram algemados e levados, peguei o rádio e ajustei a frequência.

— Base, aqui é Sara. — Esperei o chiado cessar. — Pegamos os dois, mas... isso não fecha, Don. Esses caras não têm perfil pra esse tipo de negócio.

Silêncio por alguns segundos. Então a voz firme e lenta de Don Ezequiel preencheu o canal:

— Como assim, Sara?

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