Capítulo 136
Mariana Bazzi
O som dos golpes contra o saco de pancadas ainda ecoava na minha cabeça, mesmo depois de horas de treino, meu corpo doía — mas uma dor boa, de quem se superou. Cada chute, cada desvio, cada queda no tatame era um lembrete: eu não era mais a mesma Mariana que Ezequiel encontrou meses atrás.
Sara me corrigia com precisão, como uma treinadora paciente e exigente. Samira observava com aquele olhar clínico de quem enxerga mais do que diz. Minha mãe, Safira, surpreendeu até a mim: foi firme nos exercícios básicos e resistiu bem às quedas. Entre uma luta e outra, até rimos. Ela ainda cai facilmente, não tem força suficiente nas pernas.
— Está se tornando uma guerreira de verdade — comentou Samira, ao me ver repetir um movimento de defesa com mais firmeza.
Foi quando minha mãe ajeitou os cabelos presos num coque improvisado e me olhou com um sorriso diferente, aquele meio cúmplice, meio travesso que só ela tem.
— Agora chega, né? Já treinou como uma general. — Ela se aproximou e limpou um fiapo de suor da minha testa. — Vi que tem muito vestido bonito pendurado no seu quarto e você ainda não usou nenhum.
Eu franzi o cenho.
— Vestido?
— Sim. É a noite de apresentação para os mafiosos e amigos do seu noivo, minha filha. Deixe Ezequiel mais contente hoje. Chegou a hora de parar de socar almofadas e mostrar que também sabe reinar com elegância. Vamos?
Suspirei, vencida. Sorri de leve.
— Está bem. Só se você me ajudar a escolher.
Subimos juntas. As outras vieram atrás, e por algum motivo, aquilo parecia uma espécie de ritual. Como se as mulheres da casa estivessem me preparando para algo mais do que uma noite. Me olhei no espelho e, por um instante, reconheci quem estava lá: não a menina acoada que provocava Ezequiel para mantê-lo afastado, mas a mulher que agora ele escolheu como parceira de guerra e de vida.
Escolhi um vestido sofisticado, tom champagne claro, de alta costura. Não era provocante, mas insinuava força com elegância. Cintura marcada, mangas longas de tecido leve e detalhes bordados nos ombros. A maquiagem realçou meus olhos, e o batom suave contrastava com o cabelo preso num penteado simples, moderno.
Desci as escadas com calma. E naquele momento... sim, eu senti. Era a minha casa também.
Fui direto à cozinha. Os funcionários estavam correndo, mas estava organizado. Coordenei com firmeza, ajeitei travessas, corrigi a posição das flores em uma das mesas e verifiquei a iluminação no salão. Luz baixa, mas suficiente. Um toque de luxo discreto em cada canto. Exatamente como imaginei.
Então, começaram a chegar.
Homens que eu não conhecia, rostos marcados, alguns de ternos bem cortados, outros com cicatrizes visíveis que denunciavam sua história. Mafiosos, mas não importava. Eram aliados — ou deveriam ser.
Senti um frio na espinha. Ainda me causava desconforto aquele olhar prolongado de certos homens. Mesmo vestidos com classe, havia neles o peso da violência que carregavam e de vestígios do que já passei.
Mas, como se sentisse isso de longe, Ezequiel apareceu. Surgiu ao meu lado com sua presença firme, e segurou minha mão. Forte, quente, segura.
— Esta é Mariana — disse com voz clara e autoritária. — Minha noiva.
Cumprimentei os homens com um leve aceno de cabeça, sem sorrir demais. Não era hora de simpatia, mas de respeito. Um deles me olhava profundamente, mas não senti nada de ruim agora. Acho que Ezequiel não viu.
Minha mãe estava atrasada, a doutora ficou a ajudando a se arrumar. Agora que consegue andar, vai nos acompanhar no jantar.
Reparei que Aaron foi chamado por Luciana. Ela o segurou pelo braço e ambos caminharam pelo corredor. O mais estranho foi Sara, que ficou olhando pra eles.
Ezequiel posicionou os convidados às mesas, e veio até a mim.
— Vou buscar um aperitivo e já volto — avisei.
— Eu te ajudo, meu anjo... — Ezequiel disse e já veio andando perto de mim.
— Acho que ainda tenho receio, um leve incômodo estando perto de tantos homens, mas você está qui não é? — falei olhando nos olhos de Ezequiel.
Só que de repente, parei abruptamente ao ver Sara encostada na porta de um dos quartos. Ezequiel fez o mesmo.
— Sara? O que está fazendo aqui? — ela virou pra gente depressa, tentando ajeitar o salto.

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