Capítulo 142
Mariana Bazzi
Eu estava ali, ao lado da minha mãe, com o coração batendo tão alto que parecia ecoar nos meus ouvidos. Tinha trazido ela porque precisava de respostas. Precisava que fosse ela a encarar aquele homem — aquele que dizia ser meu pai. Mas no instante em que os olhos dos dois se cruzaram, algo se quebrou dentro de mim.
— Amor… — ele disse, com a voz rouca, ensanguentada, como se isso bastasse para reconstruir qualquer passado — Diz que lembra de mim, da gente...
Minha mãe parou, respirando com dificuldade. Eu senti o peso do corpo dela vacilar sobre o meu braço, então a segurei mais firme. Ela encarava aquele homem com confusão e espanto, como se quisesse arrancar do fundo da mente uma memória que simplesmente não existia.
Minha mãe piscou. O olhar dela ficou perdido por um segundo. Eu prendi a respiração. Mas então ela balançou a cabeça — devagar, firme.
— Não. — respondeu. A voz dela, ainda fraca, estava estável. — Não lembro de nada disso.
Ele soltou um som de dor que não vinha de nenhum osso quebrado. Era outra dor — uma que eu não sabia nomear.
— Safira, meu amor… eles mexeram com você… colocaram coisas na sua cabeça, te afastaram de mim! — Vlades insistiu.
— Mesmo se fosse verdade… — ela continuou, com mais força. — Mesmo se tudo isso tivesse acontecido, mesmo se eu tivesse alguma lembrança de você… você me dopou. Me tirou da minha filha sem consciência. Me levou pra uma casa estranha, me trancou lá, desacordada. O que planejava?
Ele gemeu. Um som animalesco. Parecia não conseguir aceitar aquilo.
— Você era minha… você sorria comigo… dançava… eu fiz tudo pra te trazer de volta!
— Mentiroso! Você trabalha com aquele nojento do Sidnei! Eu já te vi lá naquele presídio onde vivi. Foi ele quem te enviou não foi? — olhei para ele com raiva, agora.
— É sério, porra? — Ezequiel esbravejou. — É um maldito traidor! Vou esmagar suas bolas com a máquina.
— Não! Eu me fiz de soldado dele pra conseguir Safira de volta, mas de repente ela sumiu. Eu não te encontrei mais, querida. Pensei que tivesse morrido, porque foi o que ouvi. Eu sou o pai da Mariana, você precisa lembrar de mim. — A voz dele me deu náusea. Ezequiel bufou, indignado.
— Já chega! Estou farta de tanta mentira. Se minha mãe não te reconhece é porque é outro farsante. — fui mais perto para dar um chute no maldito, mas de repente, a porta foi aberta abruptamente. Era Peter.
Peter entrou como uma tempestade, os olhos estreitos e a mandíbula cerrada. Ele empurrava um homem à frente, com o braço enlaçado no pescoço do sujeito e uma arma encostada na têmpora dele.
— Este aqui estava rondando a casa o dia todo — disse Peter, a voz fria como gelo. — Agora há pouco o peguei fotografando. Quando vocês chegaram, esperei o melhor momento e o capturei quando Maicon, nosso Consigliere chegou. — Vi que eu já conhecia o Consigliere da fundação também. Estava logo atrás.
O silêncio que se seguiu pareceu mais alto do que qualquer grito. O homem que Peter segurava estava suado, trêmulo, e tinha uma expressão que oscilava entre desespero e resignação. Olhava para um e para outro apavorado.
Mas foi quando minha mãe viu o rosto dele que o chão pareceu se mover sob nossos pés.
— Amir! — ela disse, num sussurro ofegante, os olhos se arregalando como se vissem um fantasma.
E então ela simplesmente caiu.
— Mãe! — gritei, segurando-a antes que ela batesse com a cabeça no chão.
Ezequiel largou e chutou o Vlades com um empurrão até e veio até nós, mas eu já a tinha deitado mamãe com cuidado. Ela ainda respirava, o peito subindo e descendo rápido, mas os olhos estavam fechados, e o rosto, pálido como porcelana.
— O que está acontecendo aqui?! — eu gritei, virando para o homem que agora arfava no canto da sala esmagado por Peter. — Quem é você? O que fez com ela?
Antes que ele pudesse responder, Vlades tentou se levantar do chão, mas gemeu de dor e caiu de novo. Seus olhos estavam vermelhos, fixos no outro.
— Ele não é ninguém! — berrou Vlades. — Isso é confusão da cabeça dela! É tudo mentira! Safira está dopada! Ela não sabe o que diz! Eu sou o marido dela. Eu sou o Amir!
Vlades conseguiu se aproximar com passos lentos, os braços cruzados atrás das costas, como quem analisava uma peça de xadrez. Porém o outro o cortou:
— Eu me chamo Amir! Amir Al-Kudsi! Porque esse cara está mentindo? — o da porta reclamou, Peter o apertou mais.

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