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Aquela que o Don não pôde deixar partir romance Capítulo 144

Capítulo 144

Mariana Bazzi

Ficamos todos em silêncio enquanto entrávamos na sala principal da casa. Era um silêncio denso, que carregava décadas de dor, de ausência, de medo. E mesmo assim, de alguma forma, também trazia uma esperança tímida, frágil, como uma flor que cresce no asfalto.

Eu me sentei numa das poltronas. Peter e Maicon permaneceram em pé, tensos, como sempre, observando cada movimento ao redor, enquanto os homens da segurança se aproximavam com os kits para o exame de DNA. Um deles pediu minha mão com todo o cuidado, e colheu o material da parte interna da minha bochecha com um cotonete esterilizado. Depois, fizeram o mesmo com Amir.

Ninguém falou. Nem mesmo ele.

Mas o que realmente me deixou em silêncio não foi o exame, foi minha mãe.

Safira não parava de olhar pra ele.

Seus olhos, tão acostumados a ficarem vazios, agora estavam cheios. Cheios de brilho, de vida, de amor. Ela o tocava o tempo todo. Como se temesse que ele desaparecesse de novo. Como se quisesse decorar cada detalhe de seu rosto.

Amir… ele também não tirava os olhos dela.

Nunca vi um homem olhar assim para alguém. Não era apenas desejo ou saudade. Era devoção. Era como se cada segundo longe tivesse sido uma tortura, e agora ele só queria garantir que ela era real, viva, respirando ali com ele.

— Me perdoa… — ele repetia, quase sussurrando, como um mantra. — Eu procurei vocês… meu Deus, como eu procurei… Sidnei nos apagou do mundo, Safira. Ele fez tudo para que você nunca me encontrasse, nem eu a vocês. Mudou nomes, lugares. Eu juro por tudo que tentei. A gente perdeu tudo, meu amor, toda a nossa vida, nossa juventude.

Ela chorava. Silenciosamente.

— Só não perdemos o amor, não é Amir? — Mas o rosto dela... era como se finalmente estivesse em casa. O sorriso que ela tentava conter cortava meu peito de um jeito estranho, porque eu percebi que nunca vi aquele sorriso antes. Nunca.

Minha mãe… estava feliz.

E eu... eu não sabia como lidar com isso.

Eu queria ter raiva. Ainda queria gritar, xingar, exigir respostas dele, como se tivesse mais culpa do que aparenta por tudo que sofri. Mas tudo em mim começou a desmoronar quando ela segurou o rosto dele com as duas mãos, e simplesmente o beijou.

Ali, na frente de todos.

Sem vergonha, sem medo, como se o tempo tivesse parado só para eles.

E foi aí que não aguentei.

As lágrimas vieram sem que eu pudesse impedir. Desceram quentes, espessas, salgadas, como tudo que ficou engasgado na garganta a vida inteira.

Meu pai.

Aquela palavra ecoou dentro de mim com um peso novo, real. Ele era meu pai. Eu sabia, mesmo antes do exame confirmar.

Porque ninguém olharia pra minha mãe assim… se não a tivesse amado de verdade.

Ninguém a trataria como ele tratou. Com tanta delicadeza, com tanta dor contida, com tanto cuidado, devoção.

Eu abracei minhas próprias pernas, encostei a cabeça no joelho e deixei as lágrimas caírem em silêncio. Peter e Maicon me olharam, mas não disseram nada. Katy se aproximou e colocou a mão sobre meus ombros, apertando levemente.

Eu não estava sozinha. Mas era como se, por um instante, precisasse me sentir assim para aceitar tudo que estava acontecendo.

E eu aceitei.

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