Capítulo 145
Narrado por Aaron
A porta pesada do galpão se fechou atrás de mim com um rangido grave, abafando os gritos que vinham de dentro. Ezequiel ficou lá. Ele parecia se alimentar daquilo. Eu não era mais útil, Vlades já era. Estava quase morto.
Afastei-me rápido, sentindo a adrenalina começar a ceder lugar à dor no ombro. O curativo já estava saturado e latejava.
Foi então que ouvi a voz dela:
— Aaron! Vem aqui, preciso trocar esse curativo.
Era Luciana. Uma das empregadas da casa, sim, mas do tipo que não se deixava diminuir. Os olhos firmes, os gestos decididos. Sempre achei ela bonita, simpática até. Mas só isso.
— Não precisa, tô bem. — respondi, desviando o olhar e tentando seguir em frente.
Percebi que arrumou os seios.
— Vai andar por aí parecendo que tomou tiro ontem? — ela retrucou, com uma sobrancelha arqueada.
Suspirei, pronto pra negar de novo. Não quero nada com ela.
Mas então, como se o universo tivesse um senso de timing cruel, ela passou.
Sara. O meu sonho diário e noturno.
Andava pelo corredor com aquele jeito ríspido, impecável, como se nada a tocasse. Nem balas, nem gritos, nem pessoas. Muito menos eu.
É linda! Tem um cheiro que me faz parar pra sentir a cada vez que passa por mim. Seus cabelos compridos, sempre presos, mostram seu rosto delicado e diferente da sua feição.
Nos nossos primeiros dias aqui, ela era a única coisa boa de se olhar. A única que parecia humana. E foi por isso que eu fiz tudo. Mudei meu jeito, meu corpo, minha postura. Dominei o cachorro de Ezequiel – o bicho quase arrancou meu rosto, e essa cicatriz é o lembrete diário, mas tudo bem. Tudo por ela. Sem contar que agora me acostumei com o dog.
E ela? Nunca sequer me viu de verdade. Sempre esperando as migalhas de Ezequiel. É... A vida não parece justa.
Mudei de ideia ali mesmo quanto ao curativo. Estou gostando dela me ver evoluir.
— Tá. Vamos trocar esse curativo, Lu — falei, olhando pra Luciana como se ela tivesse sido minha escolha o tempo todo.
Ela estranhou, mas me guiou até um dos quartos mais discretos, onde tinha gaze, álcool, tesouras e silêncio.
Sentei-me, e ela começou a remover o curativo com cuidado.
— Sabe, posso estar enganada — ela começou, com a voz mais baixa —, mas... você tá me usando pra fazer ciúmes pra Sara?
Olhei pra ela. Direta, como sempre. Mas hoje, com uma ponta de mágoa na voz.
— Porque está perguntando isso?
— Por que você mudou tanto com ela, Aaron? — insistiu.
Engoli seco. A cicatriz no ombro queimava, mas a que tinha no peito ardia mais.

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