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Aquela que o Don não pôde deixar partir romance Capítulo 147

Capítulo 147

Ezequiel Costa Júnior

O cheiro de sangue ainda estava nas minhas mãos, mesmo que eu as tivesse lavado umas quatro vezes. Porém a imagem de Vlades tremendo, quebrado, implorando pela vida… não sairia tão cedo da minha mente, só isso já era uma ótima recompensa. Ainda teve o Malcon. Pelo menos agora não vou mais precisar olhar pra nenhum desses infelizes.

Subi as escadas do galpão com os ombros pesados. Mauro me esperava do lado de fora, fumando um cigarro barato e olhando pro céu cinza.

— Queime os corpos — ordenei. — Os dois. Quero cinza. Sem chance de reconstrução.

Ele assentiu, jogando o cigarro no chão e apagando com a bota.

— Entendido. Vai querer que enterre a cinza ou jogue em algum lugar?

— Jogue no esgoto. É o que eles eram.

Quando entrei na sala, passei direto pelos corredores sem dizer uma palavra a ninguém. Tirei as roupas manchadas, joguei no cesto de lavanderia como se fossem lixo tóxico, e entrei no banho.

Quando saí, já mais satisfeito, fui direto ao laboratório. Um envelope me esperava em cima da mesa de vidro, lacrado com meu nome.

O teste de DNA. Sentei, abri ali mesmo.

Resultado: positivo.

O homem que Peter capturou. Aquele da máfia americana, era o pai da Mariana.

Suspirei fundo. O nome no laudo era claro. E agora que tínhamos certeza, as peças começavam a se encaixar.

Subi pro segundo andar com o envelope ainda na mão. A voz da televisão estava ligada, mas o volume baixo. Quando entrei na sala, vi uma cena que me pegou de surpresa.

Mariana estava sentada ao lado da mãe, atenta, ouvindo o homem que estava diante delas. Ele falava com a voz embargada, explicando coisas que não são fáceis nem pra quem viveu: como foi preso injustamente, como se escondeu, como teve que servir à Cosa Nostra para não morrer como um rato num beco.

Por um momento, ninguém parecia em guerra. Havia paz naquele cômodo. Uma paz frágil, talvez.

Mariana olhava para o homem com olhos cheios de perguntas. A mãe dela — firme, mas vulnerável — segurava sua mão com ternura.

Eu esperei. Deixei ele terminar a explicação. Só então, me aproximei.

— Mariana — chamei, fazendo com que todos me olhassem. — O resultado chegou.

Ela se virou, o coração nos olhos. Esperança e medo misturados.

— E então? — perguntou.

Olhei para o envelope, depois para ela.

— É ele mesmo. — Abaixei levemente a cabeça. — O teste confirmou. Ele é seu pai.

Silêncio.

O homem fechou os olhos por um instante, como se finalmente pudesse respirar. Mariana soltou um suspiro que estava preso há anos.

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