Capítulo 152
Mariana Bazzi
Estávamos no meio da arrumação da mesa — frutas frescas, croissants que a Luciana tinha deixado mais cedo, copos de suco e canecas fumegantes de café — quando notei uma presença passar ligeiramente pelo canto do olho.
Era Sara.
Ela cruzou o corredor com passos apressados, a expressão tão fechada quanto uma porta trancada por dentro. Os olhos varreram a sala por um segundo antes de seguir em frente, como se estivéssemos invisíveis.
Sofia, que até então equilibrava uma bandeja com guardanapos coloridos, franziu o cenho e soltou a pergunta em voz alta, do jeito mais espontâneo que só uma criança poderia fazer:
— Mamãe! Por que ela é tão brava? O que será que comeu e não gostou?
A vozinha ecoou pelo ambiente e Sara congelou no mesmo instante, no meio do caminho.
— Sofia! Não fale tudo que vem na cabeça. A gente já conversou sobre isso — Malu corrigiu.
— Mas mamãe, a vovó vive falando que o vovô Hélio tem cara feia porque comeu e não gostou. — Malu foi até a pequena e tentou fazê-la parar, distraindo.
O silêncio ficou espesso por um segundo. Eu segurei o riso nervoso e dei dois passos à frente.
— Sara? Está tudo bem? — perguntei, mantendo a voz leve, como quem oferece uma saída educada.
Ela virou o rosto lentamente, encarando Sofia. Depois olhou para mim. O sorriso que puxou nos lábios era mais um mecanismo de defesa do que qualquer traço de simpatia.
— Claro que sim — respondeu, com a voz um pouco mais aguda do que o normal. — Só estou circulando e observando todos os cantos da casa pra garantir a segurança. — Passou a mão na testa, estava suando.
Sofia observou atentamente e, como se chegasse a uma conclusão profunda, soltou com um risinho:
— Ela é fofinha, mamãe. Só está com calor. Olha a testa dela escorrendo... Vem aqui moça bonita, vou enxugar pra você.
Aquela sinceridade desarmava qualquer um. Até mesmo Sara. O sorriso forçado dela ganhou um canto de verdade, mesmo que tímido.
Sofia usou seu paninho quando Sara se abaixou na sua altura e a pequena passou no rosto da soldado.
— Quer um croissant? — ofereceu.
— Hm, acho que sim...
— Foi tia Luciana que trouxe... — Sara levantou.

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