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Aquela que o Don não pôde deixar partir romance Capítulo 16

Capítulo 16

Mariana Bazzi

Ajeitei os cotovelos na cama, já estavam doloridos de tanto me apoiar neles para olhar para aquele fruto. Eu o vi tantas vezes no interior do cassino, mas nunca provei. Nunca deixaram.

— Querida? — me distraí e me ajeitei ao ouvir a doutora Samira entrar. Sua voz me trazia calma, como uma brisa leve numa tarde abafada.

— Estou aqui — respondi, olhando para ela com um pequeno sorriso. — Vim trazer as roupas pra você. A Luciana estava ocupada também.

— Obrigada — acho que a doutora não gostou da Luciana.

Ela colocou uma pequena pilha de roupas em cima da poltrona ao lado da cama e se sentou devagar, como se respeitasse meu espaço.

— Está ansiosa, não é?

Assenti com a cabeça.

— Sim. Vamos tirar a Soraya e a Iris de lá.

Meus dedos começaram a brincar com a colcha de linho. Cada dobra, cada textura, parecia uma forma de me manter conectada à realidade, de não deixar que o medo tomasse conta.

— Então vamos nos arrumar — ela disse com um sorriso gentil. — É uma noite especial, não é?

— Você vem comigo? — perguntei, tentando não demonstrar o quanto precisava daquela confirmação.

— Claro, minha querida. Dessa vez estarei ao seu lado. Ainda tem a pulseira, mas quero garantir que tudo continue como já está.

— Ah, que bom!

Ela se aproximou da cama, pegou a escova que estava sobre o criado-mudo e começou a pentear meus cabelos com delicadeza. Fechei os olhos por um momento. Era estranho... me sentir cuidada. Era raro demais.

— Você tem fios lindos, sabia? — comentou, com um tom sereno. — São como os de uma boneca de porcelana.

— Eu nunca gostei muito deles — confessei, quase num sussurro. — Eles chamavam atenção demais... Eu queria ser invisível. Tudo que chama a atenção dos homens eu costumo esconder.

— Invisibilidade pode ser uma proteção. Mas também é uma prisão. Hoje, você vai ser vista. Mas pelos olhos certos. E azar de quem gostar, porque estarei armada.

Senti um nó na garganta, mas engoli antes que as lágrimas chegassem. Me deixei ser guiada por ela. Ela escolheu um vestido leve, de tecido macio e cor suave. Me ajudou a colocá-lo, com todo cuidado para não invadir meu espaço, me deixando sentir no controle.

Depois me entregou um par de sapatilhas delicadas, que combinavam com a roupa. Enquanto calçava, percebi como meus dedos ainda tremiam levemente.

— Pronta? — ela perguntou, se abaixando para ajeitar a barra do vestido.

— Quase — respondi, tentando sorrir. — Mas estou tentando.

— Isso já é o bastante. Vamos com calma. Você está indo bem demais.

Ficamos em silêncio por um momento. Eu sabia que a noite seria difícil. Rever minhas irmãs, entrar novamente num espaço onde tantos fantasmas ainda rondavam... Mas, pela primeira vez em muito tempo, eu não me sentia completamente sozinha. E isso... já mudava tudo.

— Doutora — chamei baixinho. — Você acha que elas vão me querer?

— Acho que elas nunca te esqueceram, Mariana. Nunca quiseram ficar longe de você.

Assenti, sentindo o coração apertar. Me levantei devagar, ainda sob o olhar atento dela. E quando fui até o espelho, quase não me reconheci.

Mesmo que com medo, estava mais clara. Os roxos dos braços menos visíveis, a olheira diminuiu. Gostei do que vi.

— Podemos ir? — perguntei.

— Vamos. O Don deve estar nos esperando no jardim.

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