Capítulo 162
Narrado por Aaron
A casa estava em silêncio...
Don Ezequiel tinha saído com Mariana em noite de núpcias. Ninguém ousava interferir, nem por acidente. O homem podia estar apaixonado, mas continuava sendo o Don. A presença dele ainda pairava sobre a casa como fumaça de charuto. Quente, densa, impossível de ignorar.
Mauro se dirigiu para a Zion Triade com a Samira. Pelo visto já o Consigliere, o Don só não oficializou perante a Zion.
Sobrou pra mim a parte "divertida": coordenar os setores, conferir a segurança, revisar as rondas, distribuir tarefas... e manter os desocupados longe da adega do Ezequiel. Se alguém fizesse merda hoje, a cabeça ia rolar, e provavelmente seria a minha.
Também estou com atenção exclusiva em todos os convidados de honra do Don. Principalmente os italianos e Russos.
Sara estava por ali também. Trabalhando, como sempre. Fria, precisa. Como se a noite que passamos momentos quentes, nunca tivesse existido.
Mas eu me lembrava. Lembrava dela arqueando as costas, gemendo meu nome, me arranhando como se quisesse me marcar pro resto da vida. Implorando por cada toque... Caralho! Preciso me concentrar.
E o pior: eu lembrava de mim mesmo, rendido. Tão perdido nela que, se não tivesse me afastado logo depois, teria confessado tudo. Até crimes que eu nem cometi.
— Aaron, a ronda dos fundos já foi refeita, pode cuidar daqui mesmo — ela avisou, sem nem me olhar.
Assenti, tentando me concentrar, mas era difícil. A voz dela ainda arranhava alguma parte dentro de mim. A parte que implorava pra esquecê-la e falhava miseravelmente.
Me aproximei um pouco. Só um passo, só pra ver se ela sentia.
— E você? Tá bem? — perguntei, baixo.
Ela parou e me encarou. Aqueles olhos castanhos, firmes, como se fossem me atravessar.
— Por que não estaria?
Engoli seco. Era isso ojogo dela. Sempre na defensiva. Sempre impenetrável — exceto quando estava debaixo de mim, pedindo por mais.
Gosto mais dessa parte.
— Só... achei que pudesse estar cansada — murmurei, quase idiota.
— Eu sou profissional, Aaron. Não me canso por tão pouco.
Ela se virou pra sair, e eu quase fui atrás. Mas aí… Luciana apareceu. Claro. Porque o universo me odeia.
— Aaron! — ela gritou, antes mesmo de surgir no corredor.
“Ah, merda.”
Ela veio sorrindo, saltitante, como se estivéssemos num reencontro romântico depois de três anos separados por guerra. Me abraçou com força, os braços ao redor do meu pescoço, o perfume doce invadindo minhas narinas.
— Que saudade! Tá trabalhando demais, hein? Nem deu notícias! Eu só fiquei na cozinha. Não aguento mais fazer salgados, principalmente croissant.
Eu congelei, literalmente.
Só pensei: "Eu esqueci de avisar que o teatrinho acabou."
Sara ainda estava ali, me encarando.
A morte me olhava com olhos castanhos e mandíbula tensa.
— Luciana... — tentei me afastar, mas ela apertou mais.
— Calma! Deixa eu matar um pouquinho da saudade. A gente combinou isso, lembra? E outra... — sussurrou no meu ouvido, com aquela voz risonha — se a Sara estiver por perto, melhor ainda, né?
Puta merda.
— Não precisa mais, caralho... — sussurrei.

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