Capítulo 165
Mariana Bazzi
Acordei com a luz suave do sol invadindo o quarto por entre as cortinas de linho branco. A brisa morna entrava devagar pela varanda aberta, trazendo o cheiro doce de areia quente e maresia distante. Demorei alguns segundos para lembrar de onde estava. Não porque o lugar era estranho… mas pela paz que transmitia. Ezequiel dormia ao meu lado, o braço pesado em volta da minha cintura, o peito nu subindo e descendo em um ritmo calmo que contrastava com o homem que, ontem à noite, prometeu me afundar na banheira — e cumpriu com louvor.
Sorri. Deitei de novo a cabeça em seu peito, ouvindo as batidas compassadas do coração dele, e deixei os dedos passearem pela cicatriz que cruzava sua costela. Cada marca naquele corpo contava uma história. Algumas de violência. Outras de resistência. Mas as minhas favoritas… eram as que eu tinha deixado.
— Vai ficar me acordando com carinho ou vai continuar me provocando com esses dedos? — a voz dele veio grave, rouca de sono, fazendo meu sorriso aumentar.
— Talvez os dois — respondi, erguendo o rosto e o encarando. Os olhos castanhos, ainda turvos, me observavam com aquele brilho de desejo e também ternura.
— Então eu escolho a segunda opção — ele virou o corpo, me puxando pra debaixo dele num movimento lento, preguiçoso, delicioso. — Mas não agora. Primeiro, você vem comigo.
— Pra onde? — perguntei, surpresa, enquanto ele se levantava, nu, andando até a porta com a tranquilidade de quem sabia que o mundo inteiro se curvaria se ele mandasse.
— Confia em mim. — Ele pegou uma camisa larga e jogou pra mim. — Coloca isso e vem.
Minutos depois, estávamos andando descalços pelas dunas, o vento bagunçando nossos cabelos, a areia quente sob os pés, e a imensidão dourada do deserto ao nosso redor. Ezequiel segurava minha mão com força, como se precisasse me sentir ali com ele.
Chegamos até o topo de uma duna maior, onde uma pequena tenda de tecido leve já estava montada. Almofadas, frutas, suco fresco, e duas taças.
— Isso tudo... — olhei pra ele, rindo. — Você preparou de madrugada?
— Mandei preparar ontem, antes da gente... — ele parou, arqueando uma sobrancelha. — Se afogar na banheira.
— Ah, então isso você planeja. Romântico, calculista e ainda por cima irresistível? Perigoso.
— Perigosa é você. — Ele se sentou na tenda e me puxou pra junto dele, me colocando no colo. — E por isso eu quero te lembrar de tudo o que ainda podemos ter… antes de voltarmos pro caos daquele lugar onde moramos.
Eu me aninhei em seu peito, sentindo o cheiro da pele quente, misturado com o perfume suave de madeira e sal. Ele pegou a taça e me deu um gole. Depois ele mesmo bebeu, sem tirar os olhos de mim.
— Quando te vi pela primeira vez, naquela sala da Fundação… — ele começou, num tom baixo, que só o deserto parecia ouvir — eu achei que você fosse uma distração, talvez por ser tão linda. Mas você mudou isso em questão de minutos com seu orriso largo, quando lhe dei o presente e perguntei o seu nome, virou meu equilíbrio. Sua imagem ficou gravada em minha mente, como uma tatuagem eternizada. A razão pela qual ainda não deixei tudo queimar.
Toquei seu rosto com delicadeza, sentindo a barba por fazer roçar na minha palma.
— E você virou meu norte. Mesmo sendo caos, sangue, perigo… — sorri. — Você é o único lugar onde meu coração não corre pra fugir, aquele que meu transtorno encontrou o respeito e a cura em seus braços. Obrigada meu amor.
Ele me beijou. Devagar, profundo. Como se o tempo tivesse parado só pra aquilo acontecer.

Comentários
Os comentários dos leitores sobre o romance: Aquela que o Don não pôde deixar partir