Capítulo 169
Mariana Bazzi
(Esse capítulo contém gatilhos)
O cheiro era insuportável. Mais simbólico do que qualquer punição que aquele maldito já tivesse provado na vida. E, ainda assim, nada do que acontecesse ali seria suficiente pra limpar o que ele fez.
Sidnei tremia, engasgado em medo, dor, humilhação e no próprio vômito.
Minha mãe recebeu o saquinho de merda de cachorro das mãos com uma luva do meu pai com a calma de uma mulher que finalmente ia saborear justiça. Soldados parados um pouco atrás, observavam com respeito, mantinham distância, em silêncio. Sabiam que não era um espetáculo, era um acerto de contas.
Safira se ajoelhou em frente a Sidnei, o encarando como quem encara um cadáver antes do enterro.
— Abre a boca desgraçado — ela disse. A voz firme, quase serena.
Sidnei balançou a cabeça, desesperado, tentando se afastar mesmo preso. Mas meu pai o segurou pela nuca e empurrou o rosto dele pra frente.
— Eu disse... abre a porra da boca, verme — repetiu minha mãe.
— N-não... não... por favor... — ele chorava, babava, cuspia sangue.
Amir enfiou dois dedos na boca dele e forçou a mandíbula pra baixo.
— Engole. — Foi tudo o que ela disse.
Sidnei se contorceu. Tentou cuspir, mas meu pai segurava sua cabeça com força. Ele tossiu, virou o rosto, e vomitou.
Ele soluçou.
— Eu... eu não consigo...
Amir se aproximou, o olhar flamejante.
— Vai conseguir. Engole essa merda, ou vou enterrar seu rosto nela até seus pulmões descerem junto.
Sidnei chorava como um rato acuado.
Aquele verme tinha me vendido, abusado. Tentado acabar com minha vida. E agora... estava ali, implorando pra não comer o que merecia.
Mas ainda não era suficiente.
Meu olhar caiu pra um canto do chão. Um fio de arame enferrujado preso entre raízes e folhas secas. Me agachei devagar, como se fosse um presente. Enrolei o arame na mão e fui até ele.
— Abre a boca, filho da puta — sussurrei, agachada na frente dele. — Você vai engolir tudo o que ela mandar. Ou vai perder mais do que dentes.
Ele tentou virar o rosto, mas fui mais rápida. Enfiei minha mão dentro da boca dele, segurei a língua com toda a força que consegui.
Ele se contorceu, mas não escapou. Meus dedos se fecharam nela como uma pinça de ferro.
— Fica quieto! — gritei. — Eu disse... fica quieto!
E então, com a outra mão, enfiei o arame direto na carne viva.
A língua dele sangrou no mesmo instante. Ele gritou contra minha palma, tentou cuspir, mas eu não soltei.
— Agora obedece a minha mãe... ou o próximo arame os soldados vão enfiar em outro lugar. Seu rabo, por exemplo — murmurei no ouvido dele.
O sangue escorria, o corpo dele tremia de pavor e as lágrimas caíam sem dignidade nenhuma.
Soltei.
Safira se aproximou de novo e enfiou mais um punhado na boca dele.
— ENGOLE! — ela gritou.
— EU DISSE PRA ENGOLIR ESSA PORCARIA! — gritei, chutando o corpo dele.
— VAI ENGOLIR, PORRA! — rugiu meu pai. — ENGOLIR OU EU CORTO SUA LÍNGUA DE UMA VEZ! NA HORA DE DESTRUIR A NOSSA VIDA VOCÊ BOM, NÉ? FOI O CARA! AGORA MOSTRA QUE VALE ALGUMA PORRA DO NOSSO TEMPO!
Ele engoliu. Engasgando, sufocando, chorando.
Engoliu o que pôde. Vomitou o que não deu, mas tentou de novo.
Porque sabia que se não fizesse... não sobraria nem os olhos pra chorar.
E eu assistia. Com sangue no rosto, com a arma pendurada no ombro, com as mãos sujas de tudo.
E com a alma... estranhamente leve.
Porque agora... ele estava começando a pagar.
Sidnei cuspia, os olhos vermelhos de tanto chorar, e a língua ainda sangrando com o corte profundo. O corpo tremia. Ele tinha me ensinado a engolir o medo até virar veneno. E agora… era ele quem provava do gosto.
— Coloca as mãos no chão — ordenei, fria.
Ele não obedeceu de imediato. Estava mole, tentando respirar.
— Coloca as mãos no chão! — gritei, e chutei seu ombro. Ele caiu de lado.
Os soldados puxaram-no de volta, forçaram as mãos dele contra a terra.
Ele me olhou com terror e então... eu pisei.
Pisei com força sobre a mão esquerda dele, esmagando os dedos contra o chão seco.

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