Capítulo 176
Mariana Bazzi
Voltamos no fim da tarde, exaustos, mas com a sensação de dever cumprido. A operação havia sido intensa — conseguimos libertar quatro mulheres que estavam sendo mantidas em um galpão sujo, presas como mercadoria barata. Era revoltante. Ainda assim, tínhamos vencido mais uma batalha.
Sara e Aaron conversavam baixinho, caminhando ao meu lado. O resto da equipe se dispersou logo que entramos no portão principal. Antes de ir direto pra dentro, resolvi passar na clínica. Era perto — anexa à casa — e pensei em surpreender Ezequiel com uma visita rápida.
Talvez um beijo de agradecimento, ou só ver se ele queria jantar comigo.
A porta da clínica estava encostada. Estranhei.
Toquei com os nós dos dedos, leve.
— Zeca? — chamei baixinho, com aquele apelido que usava só pra provocar, quando queria vê-lo sorrir.
Nada, ninguém respondeu. A recepcionista dele já tinha ido embora.
Tornei a bater, dessa vez com um pouco mais de força. Só que estava tudo em silêncio.
Aquilo acendeu um alerta dentro de mim. Empurrei devagar, e a porta abriu sem resistência. O corredor estava com as luzes apagadas, só a luz natural entrando pelas janelas. Fui seguindo o caminho em direção à sala de atendimento dele.
— Ezequiel? Você está aí?
A resposta veio em forma de um silêncio pesado, sufocante.
Até que meus olhos viram e congelaram.
Meu coração parou.
A cena diante de mim era surreal.
Ezequiel estava deitado sobre a maca. Nu. Só com a cueca, o corpo coberto de suor, a pele pálida.
Em cima dele… Luciana. Dormindo completamente nua, largada como se tivesse acabado de cair ali. As roupas deles estavam espalhadas pelo chão, numa bagunça íntima que gritou na minha cara.
— QUE PORRA É ESSA?! — o grito escapou de mim como uma explosão.
Luciana sequer se mexeu. Ezequiel deu um leve impulso no tronco, tentando se sentar, os olhos pesados, como se tivesse acordado de um sono muito bom.
— Mariana…? — ele murmurou, a voz arrastada.
— O que significa isso, Ezequiel? Que merda você fez? Quer morrer? — ele esfregou os olhos, não parecia muito preocupado da Luciana estar pelada em cima dele.
Mas eu já estava em chamas.
— SUA VACA! — avancei como um raio. Agarrando o cabelo de Luciana com tanta força que arrastei ela da maca direto ao chão, o corpo dela caindo sem resistência, como um saco de ossos.
Ela reclamou um “ai” abafado, mas nem tentou se defender.
— COMO VOCÊ TEVE CORAGEM, SUA DESGRAÇADA?! — gritei, a arrastando pelo chão.
Ezequiel tentou levantar, mas caiu de lado, apoiando-se na maca.
— Para… para… — ele disse, mas era como se mal conseguisse falar.
Mais vozes começaram a se aproximar. Passos correndo. Alguém havia ouvido meu escândalo. Era questão de segundos até a clínica estar cheia.
Arranquei Luciana de novo pelos cabelos, dessa vez a jogando contra a parede. Segurei com força amassei a cara dela ali e depois esfreguei no concreto decorado, que começou a cortar seu rosto.
Foi quando olhei de novo pra Ezequiel, que agora tentava, em vão, vestir a calça jogada no chão.
Ele não tinha se defendido de nada. Nem da minha gritaria, nem do escândalo. Ele não olhava pra mim com culpa. Olhava com confusão.
Foi quando a porta abriu com força e a doutora Samira entrou.
A precisão no passo, a firmeza no olhar. Em dois segundos ela avaliou a cena. Não precisou mais do que isso pra agir.
— Sai da frente. — Ela empurrou a vadia da Luciana a jogando no chão novamente. Veio direto até Ezequiel e tocou o pulso dele, depois checou a pupila.
Seu rosto endureceu.
— Ele foi drogado.
— O quê? — minha voz saiu num sussurro rouco.
Samira vasculhou o ambiente com os olhos e foi direto até a mesa dele. Pegou uma xícara ainda com líquido. Cheirou profundamente. A expressão dela se fechou de vez.
— Don... quem te deu isso?

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