Capítulo 179
Iris
Terminei de dobrar os panos de prato que Safira insistia em deixar “bem bonitinhos” na gaveta da cozinha nova. A nossa casa ainda tinha cheiro de tinta fresca e madeira recém cortada, e, sinceramente, eu não conseguia parar de sorrir. Sentiria falta da Mari, mas aqui é lindo.
— Eu nem acredito… — falei, encostando a cabeça no ombro dela. — Que depois de tudo… eu ainda posso continuar com você, mãe.
Safira me envolveu com os braços. Aquele abraço que cura qualquer ferida, mesmo as invisíveis.
— Eu sempre soube que você não era minha filha biológica, Iris. Desde bebê — ela disse, com a voz doce. — Mas isso nunca mudou nada. Nem por um segundo. Pra mim, você é minha, sempre vai ser. E se você quiser, o Amir também pode cuidar de você como pai. Ele já disse que está disposto.
Meus olhos marejaram, mas não deixei cair nenhuma lágrima. Abracei mais forte.
— Obrigada… de verdade. Vocês dois são tudo pra mim. Mas ainda assim, eu queria saber... quem são meus pais de verdade. A Soraya disse, no dia do casamento da Mari, que só ela era filha do diabo do Sidnei. Então... talvez meu pai ainda esteja vivo. Porque a mãe, a gente já sabe que ele matou.
Safira acariciou meus cabelos, tentando me acalmar.
— Vai ficar tudo bem, minha menina. Você vai descobrir o que precisa descobrir. Mas por enquanto... vive esse momento. Você está segura agora. Feliz.
Assenti, inspirando fundo. Eu precisava lembrar disso. Estava viva, tinha uma casa. Tinha gente que me amava.
Foi quando ouvimos o som de um carro se aproximando pelo portão. O motor ronronava como se quisesse ser discreto, mas não tinha como confundir.
— Olha quem chegou — Amir disse, com um meio sorriso.
Me levantei rápido, espiando pela cortina.
— É o Avelar! — falei com um sorriso que escapou antes de eu tentar esconder.
— Você não liga pro cheiro dele? — Amir perguntou, já provocando. — Todo mundo reclama daquele cheiro de axila. Aquele suor que parece temperado…
— Não. — Dei de ombros, rindo. — Quase não sinto, pra falar a verdade.
Ele me olhou com aquela expressão de quem estava pescando algo.
— Eu tenho notado que vocês passam bastante tempo juntos. Gosta dele?
Fiquei sem jeito. Mordi o lábio.
— Ah... ele é muito bacana. Tem aquele jeito durão, é um pouco mais velho que eu... mas não sei explicar. Ele me faz sentir segurança, sabe? E me respeita.
Safira sorriu, orgulhosa.
— Fico feliz por você, filha. Você merece isso. Alguém que te veja, que te admire, que te faça sentir viva.
Eu sorri de volta, com o coração leve. Fui até a porta e saí em direção ao portão.
Adan Avelar desceu do carro com aquela expressão bruta de sempre, mas os olhos... os olhos entregavam tudo. Ele tinha vindo me ver.
E eu não ia perder esse momento por nada.
— Como está na casa nova, minha linda? — já desceu com um sorriso que vejo que não "desperdiça", (como diz ele), com ninguém.
— Aqui é lindo. Amir é tão bacana, tão diferente do... Bom, nem quero lembrar.
— Você não conseguiu superar, minha linda? — veio mais perto. Arrumou meu cabelo com a mão direita.
— Consegui, mas as vezes eu lembro e é difícil de acreditar. Sei que Ezequiel o enviou para o inferno na Zion, mas ainda tenho flashes de memória.
— Esquece isso agora. Lembra que comentou que tinha um sonho? — estreitei os olhos.
— Sim... — ele foi até o carro e tirou um cachorrinho do banco de trás. — Espero que goste do seu presente de casa nova.

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