Capítulo 180
Ezequiel Costa Júnior
Deixei Mariana aos cuidados de Samira. Ela precisava de um momento de paz, de normalidade, depois da sujeira que Luciana espalhou na nossa casa. Samira a levou para uma ala mais tranquila da propriedade, e eu confiei que a manteria segura. Embora sei que iriam para a casa "dois" mais tarde, ver as mulheres.
Agora era a minha vez de cuidar do restante.
A Zion Triade não podia parar. Peguei meu Masserat e fui até nosso local.
Desci os degraus do porão da sede principal, calado, com Mauro ao meu lado. O calor no ar parecia denso demais para ser apenas o clima.
— Don, notei movimentação estranha no perímetro da parte leste da Triade ontem à noite — Mauro comentou em voz baixa. — Um dos sensores foi acionado duas vezes, mas não captamos imagem de ninguém.
— E a ronda não viu nada? As imagens das câmeras?
— Nada além de pegadas parciais no mato. Mas alguém passou por ali. O rastro é recente. Nas imagens não aparecem nada.
Assenti, com a mandíbula travada. Não era coincidência. Alguém pode ter passado informações.
— Acha que pode ter relação com a Luciana? — ele perguntou.
— Não. — Respondi de imediato. — Ela era pequena demais pra ter uma rede. O que me preocupa... é Sidnei. Quem poderia estar aliado a ele? Ou até mesmo pode ser merda de Yulssef ainda. Nunca dei as senhas do sistema pra ninguém, mas talvez ele soubesse. Não consigo lembrar disso. Ainda tenho falhas na memória.
Mauro estreitou os olhos, como se estivesse chegando à mesma conclusão que eu.
— Acha que Sidnei ainda tem aliados do lado de fora? Gente grande?
— A essa altura, não duvido de mais nada. — Apertei o punho. — Quando estávamos com Yulssef, havia homens que seguiam Sidnei como se ele fosse uma sombra mais poderosa do que nós sabíamos. Gente que sorria nas reuniões e conspirava no escuro. Até mesmo quando você chegou, me lembro que ele se movia sem deixar rastro. Ninguém encontrava aquele rato asqueroso.
— Alguém específico te pareceu mais... volátil?
Respirei fundo, pensando.
— Rumores apontam para uma união de Sidnei com cartéis de fronteiras, gente da pior espécie, podem estar tentando resgatar o que acham que ele ainda pode oferecer.
— Informação?
— Ou vingança.
Chegamos à entrada do bloco de contenção. Mauro abriu a porta com o cartão magnético. O cheiro de ferrugem e sangue impregnava o ar. As luzes brancas cintilavam sobre as paredes de concreto grosso.
A cela de Sidnei ficava no final do corredor, isolada. Dois homens guardavam a porta. Um deles destravou a entrada, e empurrei sem dizer uma palavra.
Sidnei estava de joelhos, suado, com marcas de cortes profundos nas costelas e no peito. Os olhos fundos me fitaram com ódio e cansaço.
— Olha só quem veio me ver — ele murmurou, a voz fraca e debochada. — Veio terminar o serviço, Ezequiel?
Me aproximei lentamente, abaixando na frente dele. Fiquei em silêncio por um longo instante, apenas observando. Ele ainda sangrava por um dos lados.
— Ainda não. — Olhei fundo nos olhos dele. — Vim apenas me certificar do que você sabe. O que esconde? Quem pode querer resgatá-lo? Por sociedade ou vingança, quem sabe? — falei com tom de desprezo — Vejo que sua língua está bem melhor. Se quiser mantê-la é bom dizer o que sabe.
Ele soltou uma risada seca, que virou tosse.
— Eu não sou tão importante assim, Ezequiel.
— Não seja modesto — murmurei, enfiando o dedo em uma das feridas abertas. Ele gritou, se contorcendo.
— Tem alguém aí fora, Sidnei? Alguém ousado o bastante pra rondar minha base? Alguém que acha que você vale alguma coisa viva? Porque se você não me disser quem é, vou garantir que não valha nada, nem morto.
Ele respirava pesado, suando frio. Mas não disse nada.
Os olhos dele tremeram, ficou em silêncio.
— Me diga quem está rondando a base, Sidnei. Se colaborar, talvez eu reduza as sessões de tortura. Talvez você viva mais do que algumas semanas.
Ele me encarou e... gargalhou. Uma risada seca, cavernosa, que ecoou como insulto.

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