Capítulo 18
Ezequiel Costa Júnior
Ainda parado na porta, sem saber ao certo o que fazer, fiquei olhando pro corredor por onde ela sumiu. Aquele abraço... foi real. Foi dela. Pela primeira vez ela me tocou sem medo, sem obrigação, sem ser empurrada pelas circunstâncias. Só... veio. E aquilo me desmontou por dentro. A Mariana que vi ali não era a menina assustada que se escondia atrás da doutora, nem a mulher teimosa que tentou fugir de mim. Era alguém que queria me alcançar, mesmo que ainda com medo.
Fechei a porta devagar, como se o barulho pudesse quebrar aquele momento que ainda vibrava no meu peito. Ela aceitou almoçar comigo.
Deitei, mas o sono não veio. Fiquei encarando o teto, revirando tudo na cabeça. Como um simples toque, uma simples aproximação, podia mexer tanto comigo? Eu, Ezequiel, Don de uma das famílias mais temidas, rendido por um gesto frágil de confiança. Sorri sozinho. Mal sabia ela que aquele toque valia mais que qualquer jura de lealdade que já recebi.
***
De manhã cedo, saí pra resolver pendências. Algumas coisas ainda me preocupavam em relação à movimentação do Roberto. Eu sei onde estão, coloquei um localizador na bolsa da Saraya, mas não sei se Mariana pode confiar completamente nelas, então decidi guardar pra mim até ter certeza. Não quero colocar minha bonequinha em risco.
Meus homens estavam espalhados, vasculhando cada canto daquele maldito submundo em busca de informações das irmãs dela. Mas hoje... hoje era diferente. Eu tinha um encontro.
Às onze em ponto, estava de volta. Levei para o carro a caixa onde coloquei seu presente. Queria ver de perto quando Mariana visse que guardei sua sacolinha, o vestido que dei de presente a ela num natal a quase dois anos, junto com uma agenda, enquanto eu me escondia numa fantasia de papai Noel. Se ela guardou por tanto tempo só poderia signicar uma coisa: ela também gostava de mim, tinha algum sentimento.
Vesti uma camisa escura, calça social e sapato limpo. Nada de terno, queria algo mais leve, mais... humano. E quando a vi, ali na sala esperando, entendi que tinha acertado.
Mariana estava linda. Discreta, sim, como sempre, mas tinha um brilho nos olhos que não estava ali antes. Um tipo de esperança, talvez? Ou só uma trégua com os próprios medos.
— Pronta? — perguntei com um leve sorriso.
Ela assentiu com a cabeça, segurando a alça da bolsa com força, mas não parecia prestes a fugir. Apenas nervosa.
Levei ela a um restaurante tranquilo, com vista pro lago, nada de luxo exagerado, e nada de garçom homem, apenas mulheres, pois conversei com o gerente. Queria que ela se sentisse segura, confortável, não vigiada. A garçonete nos levou até uma mesa reservada, e pedi seu prato favorito sem nem consultar o cardápio. Tinha pesquisado antes. Eu queria agradar.
Durante o almoço, ela estava falante, curiosa. Perguntou sobre minha infância, riu de uma ou outra história, me ouviu com atenção. Mas toda vez que eu encostava um pouco mais, ainda que fosse num gesto gentil, ela enrijecia. Quando segurei sua mão sobre a mesa, ela devolveu um sorriso — mas daqueles sem alma, só de educação — e logo puxou a mão de volta, se afastando um pouco na cadeira.
— Desculpa — disse ela, com a voz embargada. — É mais forte do que eu.
— Tá tudo bem, meu anjo — falei baixinho, sem querer assustar.

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