Capítulo 19
Ezequiel Costa Júnior
Ela segurava a sacolinha como se fosse um tesouro. Seus olhos brilhavam com uma mistura de nostalgia e ternura, e eu já conseguia sentir o gosto da vitória. Aquilo tinha que ser o sinal. O sinal de que ela estava começando a me enxergar. De que podia, finalmente, me amar.
— Você conhece quem me deu esse presente? — ela perguntou com a voz suave, quase infantil.
— E se eu disser que sim? — provoquei, encostando o cotovelo na mesa, sorrindo.
Ela riu, e aquilo foi como um raio de sol em meio a uma tempestade.
— Nossa! Jura? Eu não acredito! Você conhece o Papai Noel?
Sorri de canto, esperando mais, esperando que ela dissesse algo como “eu sabia que era você” ou “sempre desconfiei”. Mas não. Mariana respirou fundo e continuou:
— Sabe, Ezequiel... aquele homem... aquele Papai Noel... ele olhava pra mim de um jeito diferente. Não era com malícia, nem com pena. Não sei explicar, mas aqueles olhos me davam paz. Uma paz que eu nunca tive. Era como... como a figura de um pai. Eu via ele como o pai que eu queria ter tido.
Senti o chão abrir sob meus pés.
Pai?
Todo o esforço, todo o cuidado... E ela via aquele momento como uma lembrança paterna?
Apertei o maxilar por dentro. Mantive o sorriso no rosto. Mas por dentro... por dentro eu afundei.
Eu não podia contar a verdade pra ela. Não depois disso. Não podia arriscar destruir aquela imagem tão preciosa que ela criou e arrancar uma única chance de que olhasse pra mim como eu esperava.
— Eu... — pigarreei, buscando uma saída — eu prometo que um dia vou trazê-lo até você. Acho que ele ia gostar de saber o quanto foi importante pra você, meu anjo.
Ela sorriu. Um sorriso doce, agradecido. Estendeu a mão e segurou a minha com delicadeza.
Porra! Ela vai me deixar louco assim, caralho! Não sou velho, não sou pai dela. Será que quer me fazer odiar aquela porcaria de fantasia?
— Você é tão bom quanto ele, Ezequiel — precisei respirar fundo, me concentrar na cadeira.
Meu coração tentou se agarrar àquelas palavras, mas ainda doía. A última coisa que eu queria era parecer como um pai.
— Mariana... — chamei com firmeza, encarando-a com intensidade. — O que sente por mim é o mesmo que sente por ele? Seja sincera.
Ela desviou os olhos, tímida, mas com um sorriso nos lábios.

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