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Aquela que o Don não pôde deixar partir romance Capítulo 181

Capítulo 181

Mariana Bazzi

A luz do final da tarde entrava pelos janelões da casa dois, aquecendo os móveis simples e as paredes pintadas com tons suaves. As mulheres riam baixinho na cozinha, enquanto outras organizavam caixas no corredor. Algumas faziam seus primeiros documentos, outras aprendiam a assinar o próprio nome.

Eu observava tudo com o coração cheio.

Essa casa... essa casa era diferente de qualquer lugar onde eu já tinha estado. Ezequiel a comprou anos atrás, mas era só uma estrutura vazia. Agora, ela pulsava mulheres acolhidas por nós. Ela curava.

Samira terminava de preencher o formulário de identidade de uma das meninas — uma ruivinha chamada Emily, que mal conseguia escrever o próprio nome e ficava olhando para os lados.

— Porque está tão trêmula querida? — perguntei ao ficar preocupada.

— Só estou assustada. Tantas coisas aconteceram. E não fico a vontade aqui com aquele homem olhando e andando por nós. — olhei ao redor

— Qual? — mas pelo olhar dela percebi que ela falava do meu pai.

— Aquele é meu pai. É de confiança, não vai te fazer nenhum mal.

— Não confio em nenhum homem — um filme passou pela minha cabeça. Desde o momento em que fui resgatada por Ezequiel.

Pude me ver em seus olhos... Ela tinha o mesmo medo que eu tinha quando cheguei.

Os mesmos movimentos, o mesmo tremor nas mãos, o mesmo olhar de quem dorme com um olho aberto.

— Emily... você está segura agora. Aqui ninguém vai te tocar sem permissão. Ninguém vai mandar em você, nem machucar. Mas porque você ficou assim, querida?

Ela abaixou o olhar, mas uma lágrima escorreu.

— Passei por muitas coisas ruins, dona Mariana. Meus pais morreram, só havia meu tio. Ele me negociou com um monstro, dono daquele lugar, por um pouco de droga e uma arma. Disse que era mais valioso que eu. Só tinha onze anos. Fui forçada a fazer coisas que me machucavam, chorava de dor, apanhava. Eles não prestam.

— Calma querida, vai ficar tudo bem. — chamei Samira para a conversa com seu acompanhamento imediato.

— Eu queria acreditar nisso, mas... eu não consigo. Qualquer homem me deixa em pânico. Até se ele for bom. Até se não fizer nada. É automático... — ela sussurrou, com a voz falhando. — Só de ouvir passos pesados, minha cabeça já imagina coisa ruim. Meu corpo trava, e eu começo a suar. Fico... me encolhendo por dentro.

Eu respirei com dificuldade. Aquilo bateu fundo em mim.

— Isso tem nome, sabia? — falei devagar. — Você está sob um trauma que já passei, se chama androfobia. Medo irracional de homens. Mas com o acompanhamento certo, você ficará bem como estou hoje. Samira te ajudará, e eu mesma estarei aqui ao seu lado. Você ficará bem.

— Sério? Eu achei que estivesse louca.

— Não, não é loucura. Você consegue confiar em mim? Eu posso te ajudar com isso. Sei como se sente.

Ela assentiu, com dificuldade, como se finalmente alguém tivesse dado um nome para o monstro dentro dela.

— Você também...? — ela perguntou, me olhando com surpresa.

— Eu também — confirmei, me sentando ao lado dela no sofá. — Durante muito tempo, só a presença de um homem no mesmo ambiente me fazia ter vontade de vomitar. Eu tremia. Ficava com raiva de mim mesma. Me culpava por não reagir. E o pior... achava que isso nunca ia mudar.

Emily me olhou com os olhos grandes, atentos. Havia dor neles, mas também esperança.

— E passou?

— Não da noite para o dia — respondi com sinceridade. — Mas sim, passou. Com ajuda, com paciência, com acolhimento. E com um lembrete diário de que você não precisa confiar em ninguém... até se sentir pronta. E que, sim, existem homens ruins... mas também existem os que vão respeitar seu tempo, sua dor, seu espaço.

— E como saber qual é qual? — ela murmurou.

— O tempo mostra. Mas o mais importante é que você aprenda a reconhecer sua força. Porque eles não levaram isso de você. Só esconderam. E a gente tá aqui pra ajudar a encontrar de novo.

Ela chorou silenciosamente. Eu puxei uma manta que estava no braço do sofá e cobri suas pernas, apertando sua mão gelada.

— Aqui você não precisa ser forte o tempo todo. Nem sorrir quando não quiser. Só precisa relaxar, respirar. Dar o próximo passo quando estiver pronta. Ouvir as médicas. Elas são ótimas.

Emily encostou a cabeça no meu ombro e ficou ali. Como se, por um instante, o peso do mundo tivesse dado uma trégua.

E naquele momento, eu soube com certeza: eu não estava mais quebrada, era abrigo. Chamei a doutora Samira para ajudar quando um filme passou pela minha cabeça.

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