Capítulo 185
Narrado por Iris
A casa ainda cheirava a comida recém-chegada e ao perfume doce das flores que Sara espalhou pela mesa por ordem do Don. Mariana ria com mamãe, Amir segurava uma xícara de café como se quisesse congelar aquele momento, e Ezequiel… até ele sorria. De verdade.
E eu?
Bom… eu estava feliz. Sinceramente feliz. A notícia da gravidez da Mari me acertou como um raio de luz num campo devastado. Depois de tudo o que passamos, ela merecia essa alegria. Ela merecia uma vida nova. Uma família de verdade.
E, sinceramente, se aquele bebê tiver metade da força dela e um terço da ousadia do Ezequiel, o mundo vai ter que se preparar.
Fiquei ali um tempo, só observando, sorrindo. Guardando tudo.
Mas no fundo… tinha algo em mim pulsando. Uma coisa incômoda que não me deixava só comemorar.
Era Soraya.
Não importa o que ela fez, ou quem ela foi. Parte de mim precisava vê-la. Ou encerrar isso… ou recomeçar de outro jeito.
Quando Ezequiel autorizou, senti um alívio que veio até como lágrima nos olhos. Me despedi de Mari com um beijo na testa, abracei Safira com força e vi Amir apenas acenar, como se dissesse “vai lá… mas volta”.
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No carro com Avelar, o clima estava estranhamente silencioso. Mas não desconfortável.
Olhei pela janela por alguns minutos, tentando entender o que eu mesma estava sentindo, até que percebi que a mão dele estava apoiada no descanso entre os bancos. Procurei sua mão, meio sem pensar, ele deixou.
Seus dedos firmes se entrelaçaram nos meus sem olhar, mas o silêncio disse mais do que qualquer coisa.
Quando ele precisou passar a mão para o volante, soltei… mas apenas por um instante. Em seguida, levei a mão até a coxa dele.
Foi como se algo nele se contraísse na hora.
Senti um movimento.
Ele olhou rápido pra mim, com um brilho estranho no olhar. Surpreso, tenso… excitado.
Mas ninguém disse nada. Era engraçado provocar ele.
Ficamos só naquele silêncio e o trajeto pareceu tão curto agora. Não sei se queria chegar tão rápido.
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O carro parou em frente à casa onde Soraya estava. Era ampla, isolada, com vigilância. Dava pra ver que era um “exílio vigiado” do lado externo onde ela estava.
Desci do carro com Avelar logo atrás e seguimos para a parte do canil. O som de latidos chamou minha atenção. Três cães imensos estavam ali, e Soraya… estava lá dentro. Limpando o chão, usando luvas, de joelhos, com o cabelo preso num coque simples.
— Ela está aí desde cedo — comentou Avelar, olhando em direção ao lado oposto, onde Aaron observava os cães, especialmente o mais feroz. Só com uma mão pousada na cabeça do animal e uma conversa calma que parecia hipnótica.
— Se esse bicho se solta, ela vira janta — completou ele, com a voz seca.
Mesmo com o tom de ameaça pairando no ar, algo em Soraya me surpreendeu.
Quando me viu, os olhos dela se arregalaram por um segundo, e eu juro que achei que ela viraria o rosto. Que ia fingir que não me viu ou fingir que eu não era ninguém.
Mas não, ela sorriu.
Um sorriso de verdade. Surpreso, caloroso, meio infantil.
Tirou as luvas e veio até mim, os olhos brilhando.
— Você veio… — ela disse, com a voz mais doce que eu lembrava de já ter ouvido dela. — Eu não achei que viria. Ninguém veio ainda. Me sinto tão sozinha, Iris.
Fiquei olhando pra ela como se não soubesse se abraçava ou fugia.

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