Capítulo 20
Mariana Bazzi
A sacolinha estava no meu colo, como um amuleto. Eu a segurava com tanto cuidado que parecia feita de vidro, enquanto a caixa bonita deixei no chão. Dentro dela, um pedaço do que eu nunca tive direito de viver. Nunca usei o vestido, e na agenda haviam sonhos que talvez nunca conseguisse realizar.
Ezequiel me olhava com seus olhos pacientes, protetores, e ao mesmo tempo... tão intensos. Era confuso. Era tudo muito confuso.
Ele disse que conhecia o Papai Noel. Meu coração deu um salto. Parte de mim queria acreditar que era só uma coincidência — que o homem gentil de olhar calmo e abraço acolhedor existia mesmo. Que ele poderia aparecer diante de mim e me dar mais um presente. Um olhar. Um afeto. A figura de um pai. De um herói.
O jeito como Ezequiel me tocava, como me olhava, como dizia meu nome... não era nada paterno. Era diferente. E por mais que meu corpo começasse a reconhecer isso — a desejar isso —, minha mente ainda gritava de medo.
Eu não sabia como explicar isso pra ele.
Como dizer que sinto vontade de beijar sua boca, mas também sinto meu estômago virar quando ele se aproxima demais? Como contar que tremo não por falta de desejo, mas porque meu corpo aprendeu a se defender antes mesmo de pensar?
Ele é bom comigo. É doce. E, mesmo com toda a força que carrega, com aquele jeito de homem que poderia esmagar qualquer um ao redor, nunca me feriu. Não me forçou. Pelo contrário... ele me oferece escolhas. Liberdade. E agora... uma chance.
Mas será que sou capaz?
Enquanto ele segurava minha mão e beijava com aquele cuidado que desmonta qualquer armadura, eu sentia o coração disparar. Um pouco de medo, mas também expectativa. Era como se eu estivesse de novo naquele Natal, diante do Papai Noel misterioso, desejando um futuro diferente. Um futuro com mais cor. Com mais amor. Só que um amor diferente. Aquele entre homem e mulher.
Suspirei.
Eu precisava ser sincera com ele. Mas como se fala sobre algo que nem a gente entende completamente? Como explico que o toque dele desperta algo em mim... mas também assusta? Que minha pele se arrepia de desejo e medo ao mesmo tempo?
Olhei para ele. A forma como ele me olhava agora... como se eu fosse preciosa, mas não uma propriedade. Como se eu tivesse o controle.
— Ezequiel... — minha voz saiu baixa, trêmula. — Tem algo que você precisa saber.
Ele ergueu os olhos, atento, gentil.
— Eu... eu não sei como me entregar. Não sei como confiar de verdade... ainda. Às vezes, só de pensar em um homem me tocando, meu corpo fecha, congela, sabe? Não é você. É tudo o que eu vivi. Homens me fizeram mal demais. Eu quero ter você, só não sei como.

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