Entrar Via

Aquela que o Don não pôde deixar partir romance Capítulo 190

Capítulo 190

Ezequiel Costa Júnior

Estava praticamente limpo. O lugar cheirava a pólvora, sangue e suor. Uma combinação que eu já conhecia bem demais. A fumaça ainda dançava no ar, e o movimento dos meus homens fazendo a varredura era constante. Nenhum japonês em pé. Nenhum risco aparente. Só os estalos do rádio, o tilintar das armas sendo recarregadas e a respiração pesada de quem sobreviveu.

Me abaixei ao lado de Mariana, ajudando a pressionar o curativo no ombro da Íris. Ela resistia à dor, firme, embora o rosto ainda demonstrasse o trauma. Mariana limpava o sangue com delicadeza, a testa suada, as mãos tremendo só de leve. O instinto protetor dela era maior que qualquer abalo emocional naquele momento. Íris segurava firme na barra da camisa da irmã, os olhos ainda alertas apesar da exaustão.

— Vai ficar tudo bem — murmurei pra Íris. — Você é forte e agora tá segura. O tiro vai cicatrizar em dias.

Ela só assentiu, com um meio sorriso de quem mal tinha forças pra continuar acordada. Mas não ia cair ali. Não ainda.

Foi quando Mauro se aproximou com a expressão de quem tinha encontrado o que precisava.

— Don. — Ele se abaixou um pouco, segurando o notebook com uma mão e dois celulares na outra. — Fizemos a coleta. Tinha bastante coisa. Ainda vou decifrar tudo, mas já temos o básico. Consegui extrair informações rápidas dos japoneses vivos… os que ainda estavam lúcidos o suficiente.

— Fala. — Cruzei os braços, mantendo o olhar firme.

— Quem mandava aqui era o Hikato. Não era só um executor, ele liderava essa célula inteira. Um velho conhecido, pelo visto. — Ele me lançou um olhar carregado de significado. — Só que ele não era o topo da cadeia, não. Só a linha de frente.

— Quem é o chefe dele? — perguntei, já imaginando a resposta.

— Ainda não temos o nome, mas as mensagens nos aparelhos falam sobre alguém que “não pode ser tocado”. Alguém que até Don Alexei evitava. E mais: foi por causa dessa figura que o Alexei fez o acordo com os americanos envolvendo a própria filha. Estão no Japão.

— Pra se proteger — completei, com os dentes cerrados.

— Exato. Esse cara não era ameaça iminente pra nós até agora. Mas a movimentação no Oriente tá mudando. Na Arábia mesmo, segundo os mapas de movimentação dos aparelhos, não tem mais base ativa com eles. Só essa aqui. Nada indica outra célula no país. Mas Don… essa gente se enterra onde ninguém espera.

— Já fez backup de tudo? — perguntei.

— Sim. Vai comigo direto pra Zion. Nossos homens já estão esperando. Iremos fazer análise completa nos aparelhos.

— Ótimo.

Fiquei em silêncio por um instante. Olhei pra Hikato, sentado encostado numa pilha de caixas, respirando com dificuldade, a cabeça baixa. Parecia derrotado. Parecia, mas aquele tipo sempre espera a primeira oportunidade pra morder.

— Leva ele pra Zion, Mauro. Mas não vai com ele até Sidnei. Deixe separado.

— Não?

— Não. Vai antes e cuide disso. Quero chegar depois e vê-los quando se verem pra ver que merda dá. Ver a reação dele quando achar que ganhou tempo. Eu preciso saber quem ele teme e como ele quebra. Quem quebra quem.

— Entendido, Don. — Mauro fez um leve gesto de cabeça, já se afastando.

Me virei pra chamar Mariana, mas ela estava parada, imóvel, com o olhar preso no corpo caído da Soraya. O sangue ainda escorria lentamente em volta dela. E a arma que carregava estava caída a alguns centímetros, como um eco final da traição.

Me aproximei em silêncio e a chamei:

O nosso preço é apenas 1/4 do de outros fornecedores

Histórico de leitura

No history.

Comentários

Os comentários dos leitores sobre o romance: Aquela que o Don não pôde deixar partir