Capítulo 191
Mariana Bazzi
Entramos no carro, nos encaminhando para ir pra casa.
Apoiei a cabeça no vidro, sentindo o coração bater devagar, como se estivesse tentando entender o que ainda restou de mim depois de tudo isso. Ainda consigo ouvir o disparo. Ainda consigo ver o corpo da Soraya no chão. E mesmo sem culpa… dói.
Talvez não pela morte em si, mas por tudo que morreu junto.
Soraya foi um engano que eu carreguei por tempo demais. Um apego ilusório, um sonho infantil de que pessoas mudam só porque a gente quer. Não mudam. Algumas escolhem a própria ruína — e levam quem estiver por perto.
Desviei o olhar pra Ezequiel, dirigindo com aquela firmeza que me ancora sempre. Seus olhos focados na estrada, mas uma das mãos esticada até mim, tocando a minha coxa com leveza. Segurança muda. Não precisa falar nada. Ele sabe o que tá aqui dentro.
Respirei fundo, coloquei a mão sobre a barriga. Um gesto pequeno, quase imperceptível… mas que me trouxe um calor diferente. Um calor de verdade.
— A minha família agora é outra — murmurei, mais pra mim do que pra ele. — Ainda tenho os meus pais, a Íris, amigos… mas minha família mesmo… é você e esse bebê.
A mão dele apertou suavemente minha perna. Vi quando ele desviou o olhar da estrada por um segundo só pra sorrir.
— Você mudou tanto… — disse, com aquela voz baixa que sempre me desmonta. — Tá mais forte, mais madura. É uma mulher agora. Completa. E eu tenho tanto orgulho de você que nem sei por onde começo.
Meus olhos marejaram, mas não chorei. Não hoje. Hoje eu quero descanso, quero paz. E saber que, mesmo depois de tanta guerra, a gente ainda tem esse silêncio dentro de casa… já é tudo.
Chegamos.
Ezequiel me ajudou a sair do carro, me conduziu com calma até o quarto. Eu nem pedi, mas ele foi até o banheiro, ligou a água na temperatura perfeita. Me ajudou a tirar a roupa com cuidado. Nenhuma pressa, nenhum desejo. Só cuidado. Amor em estado puro.
Lavou meu cabelo, massageou meu couro cabeludo, e depois pegou aquele óleo que só ele sabe usar nas minhas costas. Fez espuma nas minhas pernas, e até minhas mãos cansadas ele cuidou. Não me senti fraca… me senti protegida.
Quando saí do banho, ele já tinha colocado aquela camisola preta de seda na cama. A que ele mais gosta. E mesmo assim, não me olhou com desejo, mas com reverência.
Me deitei.
Ele se deitou atrás, me abraçando por trás, uma mão firme na minha barriga, como se segurasse tudo que nos conecta.
— Vai ser um menino ou uma menina? — perguntou, baixinho.
Sorri, fechando os olhos, me encaixando mais nele.
— Vai ser alguém com o seu olhar, mas com o meu senso de direção.
Ele riu.
— Isso significa que vamos precisar de motorista vitalício pra essa criança? — Beijou meu pescoço e depois minha barriga. — Só espero que venha com um bom coração e com sua força.
Não respondi. Só deixei o silêncio falar por mim.
Ele apoiou a mão sobre a minha bunda, quente, grande, pesada. Senti minha respiração mudar. Empurrei mais a bunda pra perto dele. Seu pau enroscou ali.
Senti o calor subir pelas minhas pernas, espalhar-se pelo ventre e estourar em arrepios na base da nuca. Algo crescia atrás de mim, devagar, exigente, tão firme que mal precisei me mover pra notar.
Virei devagar, encarando Ezequiel por cima do ombro.
Enfiei a mão por baixo, sentindo com clareza a confirmação do que já sabia. Um sorriso debochado escapou dos meus lábios.
— Pensei que estivesse de luto. — ele comentou, com aquele tom frio e provocador.

Comentários
Os comentários dos leitores sobre o romance: Aquela que o Don não pôde deixar partir