Capítulo 193
Íris
A cidade parecia distante pela janela do carro. As luzes passavam borradas, como se tudo ao redor estivesse correndo depressa demais e eu... presa em câmera lenta. O ombro latejava, mas a dor física era insignificante perto do que pulsava no meu peito.
Avelar dirigia em silêncio, me levando pra casa depois que Samira me ajudou com o curativo. E eu agradecia por isso. Ele sempre soube respeitar meus silêncios, como se entendesse que algumas batalhas são travadas dentro da gente. Mas no momento em que dobramos a última esquina antes da minha rua, ele finalmente falou:
— Como você está? O que está sentindo?
Virei o rosto devagar. Não era uma pergunta qualquer. Avelar não perguntava por perguntar.
— Eu… — minha voz saiu mais baixa do que eu esperava — ...eu só não quero dormir sozinha essa noite de novo. Ontem não consegui dormir, passei a noite claro. Ainda estou um pouco assustada com tudo que aconteceu. Não quis incomodar meus pais.
Ele franziu a testa, surpreso, mas não disse nada por alguns segundos. Respirou fundo e murmurou, com cautela:
— Você quer que eu fique?— Me calei por alguns segundos. — Ou prefere ir para o meu apartamento?
Demorei alguns segundos. O tipo de silêncio que faz o tempo parecer mais pesado do que deveria. Vi ele se mexer desconfortável no banco, desviando o olhar da estrada por um instante.
— Claro que não — ele balançou a cabeça, se apressando em consertar. — Não sei onde eu estava com a cabeça. Vou te levar pra casa.
Olhei pra ele. Tão protetor, tão cuidadoso… e ainda assim, inseguro. Coloquei minha mão sobre a dele, que segurava o câmbio com firmeza, e senti o corpo dele enrijecer.
— Vamos para o seu apartamento. — Falei, firme. — Não sei se meus pais vão se incomodar se você ficar lá… então vamos para o seu. Eu aviso a mamãe por mensagem.
Ele paralisou de verdade. Os olhos fixos na estrada como se tivesse esquecido como se dirige.
— O que foi? Avelar, você está bem?
Ele piscou algumas vezes antes de finalmente responder:
— É que… nunca levei nenhuma mulher lá. Não esperava por isso.
Ergui uma sobrancelha.
— Porque? Nunca levou ninguém lá?
— Só prostitutas.
A sinceridade me pegou de surpresa, imaginar o que já pode ter feito lá foi meio estranho, mas o tom não era ofensivo. Era cru, honesto. Doloroso, talvez.
— Como assim só prostitutas?
— Bom… — ele deu de ombros, tentando parecer despreocupado, mas a voz carregava algo mais profundo — ...nenhum dos meus convites foi aceito até hoje. Então, pra não ficar sozinho, eu… pagava por companhia. Claro que sei que você só vai dormir. Mas… na mesma cama que estive com elas? Parece não ser justo.
— Está limpa?
Ele sorriu, sem graça, como se não esperasse a pergunta.
— Sim. Tenho uma empregada. Vem todos os dias.
— Então pronto.
Segurei firme sua mão.
— Eu só quero ficar com você hoje. Poder sentir que tem alguém comigo, sabe? Meu pai nunca foi carinhoso e no fim você sabe o que aconteceu. O que ele me fez. E mamãe... Tadinha, vivia presa a vida toda com ele. Me sinto sozinha, Avelar.
Ele me olhou de relance, e vi ali algo que raramente aparecia no Avelar durão que todos conheciam: vulnerabilidade. Ele assentiu devagar, depois apertou levemente minha mão de volta, voltando a encarar a estrada.
— Sidnei conseguiu alguma coisa com você?
— Não. Só que as lembranças dele tentando são horríveis. Sempre me lembro na hora de tentar dormir e perco o sono.
— Estará segura comigo. Pode confiar. Te protegerei com minha vida.
— Obrigada. Só dormir já está ótimo — ele deu um leve sorriso.
Seguimos o caminho em silêncio. Mas agora, era um silêncio confortável.
O apartamento do Avelar não era gigante, mas era bonito. Um lugar silencioso, com tons neutros, iluminação suave e poucos objetos pessoais — o que, por algum motivo, me deixou mais confortável. Três quartos, todos bem arrumados, sem aquela bagunça masculina que eu meio que esperava.
Ele abriu a porta principal e me deixou entrar primeiro. Tirei os sapatos devagar, cuidando com o movimento do ombro, observando o lugar enquanto caminhava. Tudo parecia limpo demais. E esse “demais” dizia algo.

Comentários
Os comentários dos leitores sobre o romance: Aquela que o Don não pôde deixar partir